Uma reportagem da jornalista Jéssica Maes, publicada pela Folha de S.Paulo, traz um alerta que deveria ser tratado com muito mais seriedade do que normalmente recebem as previsões climáticas: segundo a agência meteorológica dos Estados Unidos (NOAA), a chance de formação de um El Niño muito forte chegou a 81%. Além disso, há 69% de probabilidade de o fenômeno se estender até abril do próximo ano.
A informação é particularmente preocupante porque um El Niño muito forte não representa apenas uma variação passageira do clima. Como mostra a reportagem, episódios dessa magnitude tendem a intensificar secas severas em algumas regiões e chuvas extremas em outras, além de elevar as temperaturas globais. No Brasil, os efeitos conhecidos incluem secas mais intensas na Amazônia e no Nordeste e aumento das chuvas no Sul e em partes do Sudeste.
A imagem que acompanha a reportagem é, nesse sentido, quase uma antecipação do que pode estar por vir. Uma embarcação encalhada no porto de Maués, no Amazonas, em razão do baixo nível do rio Maués-Açu, sintetiza os efeitos concretos de um clima cada vez mais extremo. A crise climática não se manifesta apenas nos gráficos dos centros de pesquisa. Ela aparece nos rios que desaparecem, nas plantações perdidas, nas cidades inundadas e na vida das populações que dependem diretamente dos ciclos da natureza.
Mas há um problema adicional. O El Niño continua sendo frequentemente apresentado como se fosse o único responsável pelas catástrofes que acompanham sua passagem. O fenômeno é natural, mas agora atua sobre um planeta já aquecido pela emissão massiva de gases de efeito estufa. O resultado é uma combinação particularmente perigosa: a variabilidade natural do clima encontra oceanos mais quentes, atmosferas mais carregadas de energia e territórios profundamente vulneráveis.
É por isso que não basta anunciar que o próximo El Niño poderá ser muito forte. Governos precisam preparar sistemas de saúde, abastecimento de água, defesa civil, produção de alimentos e infraestrutura urbana. No entanto, também é necessário enfrentar a questão que quase sempre fica em segundo plano: continuamos ampliando o desmatamento, a dependência dos combustíveis fósseis e modelos econômicos baseados na exploração intensiva da natureza, enquanto tratamos cada novo desastre como uma surpresa.
A reportagem de Jéssica Maes cumpre um papel importante ao mostrar a gravidade do cenário que se aproxima. O que falta, como de costume, é transformar alertas científicos em decisões políticas. Afinal, quando uma probabilidade de 81% de um El Niño muito forte encontra um país marcado por desigualdades sociais, cidades despreparadas e ecossistemas sob pressão, o desastre deixa de ser apenas climático. Ele passa a ser, sobretudo, político.








