sexta-feira, julho 10, 2026

A água, a RPPN Caruara e a máquina de propaganda do Porto do Açu

A matéria publicada por um veículo da mídia corporativa local sobre os investimentos do Porto do Açu em “gestão hídrica” tem todos os traços de um texto produzido para vender uma imagem positiva do empreendimento. O problema não está apenas no fato de se tratar de material de assessoria reproduzido como notícia, mas no silêncio conveniente sobre aquilo que deveria estar no centro de qualquer debate sério sobre água em São João da Barra: quem consome, quem controla e quem fica sem acesso.

O próprio Porto do Açu informa que uma de suas fontes relevantes de água é o Aquífero Emborê, manancial subterrâneo de elevada qualidade natural e grande extensão no litoral norte-fluminense. O empreendimento também procura destacar medidas de monitoramento, reúso e aproveitamento de água da chuva. Mas essa narrativa de eficiência não elimina o dado fundamental: em 2024, segundo o Relatório de Sustentabilidade do próprio empreendimento, foram extraídos 708 mil m³ do Aquífero Emborê, com retirada superior a 2 milhões de m³ no acumulado de três anos.

Enquanto isso, comunidades de São João da Barra convivem com falta d’água, estiagens prolongadas e relatos de moradores que passaram até dois meses sem água nas torneiras. Reportagem jornalística independente também registrou a informação do Inea de que existem 20 poços operando no Porto do Açu. Assim, a pergunta que a peça de comunicação empresarial reproduzida por um veículo da mídia corporativa local evita é simples: como chamar de “desenvolvimento regional” um modelo no qual o complexo portuário acessa uma reserva subterrânea estratégica enquanto populações vizinhas enfrentam insegurança hídrica?

É justamente nesse ponto que a matéria deixa de ser apenas uma peça de comunicação corporativa e passa a funcionar como instrumento de greenwashing. A gestão de um recurso natural estratégico é apresentada como demonstração de responsabilidade ambiental, enquanto ficam fora do enquadramento o volume da demanda industrial, a pressão sobre o Aquífero Emborê e a desigualdade existente no acesso à água no próprio município que abriga o empreendimento. A sustentabilidade aparece, assim, não como uma transformação das relações entre empresa, natureza e sociedade, mas como um ativo reputacional.

O mesmo ocorre no plano social. A associação recorrente entre o Porto do Açu e expressões como “desenvolvimento regional”, “segurança hídrica” e “benefícios para a população” também carrega elementos evidentes de social washing. Nesse tipo de operação discursiva, os benefícios sociais são amplificados, enquanto os custos territoriais, ambientais e humanos são diluídos ou simplesmente retirados da narrativa. O objetivo final não é difícil de perceber: reduzir resistências, ampliar a legitimidade social do empreendimento e criar condições políticas mais favoráveis à expansão dos negócios e, consequentemente, ao aumento das taxas de lucro.

A contradição se amplia quando se observa a RPPN Caruara. Apresentada pelo Porto do Açu como uma espécie de vitrine de excelência ambiental, ela também integra uma profunda reorganização territorial que restringiu usos tradicionais e alterou a relação de comunidades pesqueiras com a Lagoa de Iquipari. Estudos já demonstraram que a RPPN foi criada como compensação aos impactos do complexo portuário e que sua existência não anulou os efeitos provocados pela implantação do empreendimento sobre os ecossistemas locais.

Mais grave ainda é o fato de que a Reserva Caruara e a Lagoa de Iquipari já chegaram à Alerj como parte de um conflito socioambiental envolvendo restrições de acesso, uso de bens naturais públicos, posse da terra e violações de direitos associadas à instalação do Porto do Açu. Portanto, não estamos diante apenas de uma “boa prática ambiental”, mas de um arranjo no qual conservação, controle territorial e exclusão social aparecem profundamente misturados. A área conservada se transforma em capital reputacional da empresa, enquanto os grupos que historicamente utilizaram aquele território arcam com os custos da restrição de acesso.

É aqui que a noção de slow violence, ou violência lenta, formulada por Rob Nixon, ajuda a compreender aquilo que a propaganda corporativa procura tornar invisível. Diferentemente de uma catástrofe súbita, a violência lenta se acumula de forma gradual, dispersa no tempo e no espaço. Ela aparece na perda progressiva de acesso aos territórios de pesca, na necessidade de percorrer distâncias maiores, na pressão sobre outros ambientes lagunares, na insegurança hídrica, na degradação ambiental e na erosão silenciosa das condições materiais de existência das populações locais.

greenwashing e o social washing cumprem precisamente a função de encobrir essa violência lenta. Enquanto os impactos se acumulam sobre pescadores, agricultores e moradores do V Distrito, a comunicação corporativa produz imagens de eficiência, conservação e desenvolvimento compartilhado, que encontram canais de difusão em veículos da mídia corporativa local. A natureza degradada ou apropriada reaparece como ativo ambiental; a população atingida reaparece como beneficiária; e os recursos naturais mobilizados para sustentar a expansão industrial são apresentados como objetos de uma gestão tecnicamente virtuosa.

O ponto central é que a água, no discurso empresarial, surge como recurso técnico a ser “gerido”. Para as comunidades, porém, ela é condição de vida, permanência territorial e reprodução social. Quando a água subterrânea de melhor qualidade abastece a engrenagem portuário-industrial enquanto moradores enfrentam escassez e precariedade no abastecimento, a palavra “sustentabilidade” passa a cumprir uma função mais publicitária do que explicativa.

Por isso, a matéria deve ser lida pelo que ela efetivamente representa: uma peça de comunicação corporativa reproduzida por um veículo da mídia corporativa local e inserida em uma estratégia mais ampla de greenwashing e social washing. O Porto do Açu pode apresentar programas de eficiência hídrica, reúso e monitoramento, mas nada disso responde ao problema político maior: a apropriação privada de recursos estratégicos em um território marcado por desigualdade, desapropriações, restrições de acesso e conflitos socioambientais persistentes.

No fim das contas, o discurso da “gestão hídrica” serve para polir a imagem de um empreendimento que continua exigindo volumes expressivos de água, reorganizando territórios e distribuindo de forma profundamente desigual os benefícios e os custos de sua operação. Onde a assessoria empresarial vê inovação, é preciso enxergar também concentração de poder, apropriação privada da natureza e violência lenta. E talvez seja justamente esta a principal função do greenwashing e do social washing: fazer com que a expansão dos lucros pareça desenvolvimento, enquanto os seus custos sociais e ambientais são empurrados para fora do enquadramento.