Reportagens publicadas pela Folha de S.Paulo nesta sexta-feira, 12 de junho de 2026, assinadas por Clayton Castelani, Jéssica Maes e Philippe Watanabe, traçam um quadro preocupante: ao mesmo tempo em que cresce a probabilidade de um El Niño de grande intensidade, o Brasil continua apresentando baixíssima capacidade de adaptação a enchentes, deslizamentos e demais eventos climáticos extremos.

Segundo a reportagem de Clayton Castelani, aproximadamente 3,6 mil municípios brasileiros apresentam baixa capacidade de adaptação aos efeitos das chuvas intensas. Um estudo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que avaliou 5.570 cidades, mostra que apenas uma pequena parcela possui elevada capacidade institucional para enfrentar enchentes e deslizamentos. O levantamento considera fatores como infraestrutura, políticas públicas, recursos financeiros e capacidade administrativa, revelando que grande parte da população permanece altamente vulnerável.
A segunda reportagem, de Jéssica Maes, argumenta que a adaptação climática depende muito menos de obras caras do que de planejamento e organização institucional. Especialistas defendem a criação e atualização permanente de protocolos de emergência, sistemas de alerta, rotas de fuga bem sinalizadas, centros públicos de resfriamento durante ondas de calor e planos de contingência conhecidos pela população. O texto ressalta que essas medidas possuem custo relativamente baixo quando comparadas aos enormes prejuízos econômicos e sociais provocados por desastres climáticos, que já se multiplicam em diversas regiões do país.
Complementando esse diagnóstico, Philippe Watanabe informa que a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) elevou para 84% a probabilidade de desenvolvimento do fenômeno entre setembro e dezembro de 2026. Além disso, existe uma possibilidade significativa de que o evento alcance a categoria de El Niño muito forte entre novembro e janeiro, podendo estabelecer novos recordes históricos de temperatura do oceano Pacífico.
A reportagem destaca que o aquecimento observado na região Niño 3.4 já ultrapassa valores compatíveis com um El Niño moderado e pode superar a marca de 2°C acima da média, patamar característico dos episódios mais intensos já registrados. Caso essa projeção se confirme, os impactos poderão incluir secas severas em algumas regiões do planeta, enchentes em outras, redução da produção agrícola, aumento do risco de incêndios florestais e maior ocorrência de eventos climáticos extremos.
Para o Brasil, as consequências podem variar regionalmente. A Amazônia e parte do Norte tendem a enfrentar redução das chuvas e aumento do risco de queimadas, enquanto o Sul pode registrar precipitações acima da média e enchentes mais frequentes. Ao mesmo tempo, o aquecimento global provocado pelas emissões de gases de efeito estufa atua como um fator de amplificação desses fenômenos, tornando os eventos associados ao El Niño ainda mais intensos.
Em conjunto, as três reportagens da Folha de S.Paulo oferecem uma mensagem clara: o problema não é apenas a possibilidade de um El Niño muito forte, mas a enorme distância entre os riscos climáticos conhecidos pela ciência e a capacidade efetiva do Estado brasileiro de proteger sua população. Em um cenário de mudanças climáticas aceleradas, investir em adaptação, planejamento e prevenção deixa de ser uma opção para se tornar uma necessidade urgente de política pública.








