segunda-feira, julho 6, 2026

Saberes indígenas do CE chegarão ao SUS em projeto com 10 plantas medicinais

Projeto disponibilizará 75 mil unidades de xaropes, pomadas e tinturas a partir de raízes fortes e milenares. Foto: Heloísa Araújo.

As mesmas mãos que aprenderam a conversar com a terra agora cuidarão de um povo em maior escala. Essa é a tônica de um projeto genuinamente cearense capaz de unir saberes indígenas, conhecimento acadêmico e política pública para consolidar a força da medicina de povos tradicionais no Sistema Único de Saúde (SUS) e, de quebra, a perpetuação de um legado passado de grão em grão, de geração em geração.

“Interculturalidade e Farmácias Vivas” tem como foco a produção de fitoterápicos – produto obtido a partir de plantas medicinais – com base em vegetais cultivados nos próprios territórios indígenas do Ceará. Os números são otimistas e dão dimensão do trabalho: são quatro territórios, 10 espécies medicinais e oito agentes indígenas de cultivo.

Chambá, babosa, capim-santo, hortelã e alecrim-pimenta, por exemplo – semeadas por comunidades Tapeba, Tremembé, Pitaguary, Tabajara e Kalabaça – agora integram uma rede formal de fabricação de fitoterápicos para a rede pública de saúde. O resultado serão 75 mil unidades de xaropes, pomadas e tinturas a partir de raízes fortes e milenares.

“O ponto de partida para tudo foi perceber que temos muita riqueza dentro de nossos territórios a partir de práticas de medicina indígena e de plantas medicinais utilizadas para os mais diversos fins”, introduz Lucas Guerra.

Coordenador do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei), entidade unida à Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) e à Universidade Federal do Ceará (UFC) no projeto, ele diz que a iniciativa busca dar visibilidade principalmente para que equipes multidisciplinares de saúde indígena e do SUS possam utilizar, com mais incidência, plantas medicinais fruto de saberes ancestrais.

Diversidade de plantas medicinais foram semeadas por comunidades Tapeba, Tremembé, Pitaguary, Tabajara e Kalabaça. Foto: Arquivo pessoal.

Ao longo do processo, coube ao Dsei a indicação dos lugares e territórios onde foram estabelecidos hortos de medicina indígena; apoiar a contratação de bolsistas que atuam como agentes indígenas de cultivo; e, por fim, monitorar e acompanhar a execução do projeto.

“Desde o início de tudo, temos colaborado com o fortalecimento das ações. Alguns desses hortos de medicina indígena estão dentro de unidades básicas de saúde indígena ou em espaços comunitários. Cabe ao Dsei a articulação junto aos povos e territórios. Na fase em que estamos, temos atuado também na capacitação de todos os médicos e enfermeiros de saúde indígena que vão receitar os fitoterápicos produzidos a partir do projeto”.

Iniciativa busca dar visibilidade para maior uso de plantas medicinais fruto de saberes ancestrais. Foto: Arquivo pessoal.

A produção dos fitoterápicos ainda acontecerá. Neste momento, ocorre a reta final de aquisição de insumos. A previsão, conforme a Sesa, é de que, no máximo em outubro, a fabricação efetivamente aconteça para que, em dezembro, os produtos comecem a ser distribuídos em 17 municípios cearenses onde existem aldeias indígenas.

Como será o uso dos fitoterápicos

A princípio, o montante será direcionado apenas para a população indígena – afinal, todo o recurso do projeto é para esse público. O núcleo de Fitoterapia do Estado, contudo, pode beneficiar toda a sociedade com os produtos, conforme a necessidade e o interesse de cada município.

10 espécies medicinais, quatro territórios e oito agentes indígenas de cultivo são números do projeto Interculturalidade e Farmácias Vivas.

“O gestor de cada cidade pode nos procurar e damos o suporte técnico e científico, de distribuição de mudas certificadas, para o município que deseja implantar a Farmácia Viva”, explica a farmacêutica Aleksandra Barroso Gomes, responsável técnica pela Fitoterapia no Estado do Ceará e coordenadora do Projeto.

Se, por um lado, a implantação do projeto prescinde o envolvimento de pessoas ligadas diretamente ao projeto, a produção dos fitoterápicos é responsabilidade de cada município, segundo Aleksandra. “Quando abre-se essa possibilidade, se o município realmente quiser investir na ação, aí pode virar para uso da população inteira”.

Conheça o passo a passo da produção dos fitoterápicos

  • Em cada horto de território indígena, há semeadura das plantas medicinais e o beneficiamento primário;
  • Na sequência, a droga vegetal – como é chamada a planta desidratada – é recolhida pelo Dsei e encaminhada para o horto oficial, em Fortaleza, na seção de Fitoterapia;
  • Em um laboratório específico, acontece toda a produção de fitoterápicos, envolvendo duas empresas farmacêuticas.

A iniciativa foi apresentada por meio de um edital do Ministério da Saúde em 2024, aberto para trabalhos na seara da Farmácia Viva. O programa de assistência social, baseado no emprego científico de plantas medicinais e fitoterápicos, foi idealizado pelo professor Francisco José de Abreu Matos em 1983, e organizado sob a influência da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Nessa nova etapa da iniciativa, o objetivo foi volver o olhar para povos tradicionais – ainda não contemplados no segmento – a fim de favorecer e valorizar integrantes dessa comunidade que já trabalham na área. “Nós, da Sesa, desejamos trazê-los para mais perto e unificar os trabalhos – não sozinhos, mas com apoio do Dsei”, conta Aleksandra.

“A finalidade sempre foi trabalhar junto e melhorar a interculturalidade – que é quando compartilhamos nosso conhecimento, eles compartilham o deles, e todos aprendemos. O pontapé do projeto foi descobrir quais plantas medicinais eles já conheciam e utilizavam. Na Relação de Plantas Medicinais do Estados, temos 35 selecionadas; destas, escolhemos 10 para trabalhar diretamente a atenção primária dos povos indígenas. No fim, inserimos duas plantas a mais, tendo em vista a interculturalidade, e foi assim que iniciamos o trabalho”.

Medicina indígena é ciência

Todo esse movimento comprova algo presente na fala de Lucas Guerra: medicina indígena é ciência. “Não trabalhamos mais com o conceito de medicina tradicional porque existem diversos tipos de medicina tradicional. Então, falamos em medicina indígena. Durante muito tempo, esse termo foi utilizado como se fosse menor, menos importante ou menos científico do que os conhecimentos da medicina ocidental. E nós sabemos que a medicina indígena tem respostas para muitos males do corpo, da alma e da espiritualidade”.

Proposta é que a política pública alcance outros Estados brasileiros além do Ceará. Foto: Kid Júnior.

Ao mesmo tempo, quando o segmento é posto lado a lado com a farmacologia industrial, Lucas enfatiza a necessidade de cuidados éticos para que esses saberes não sejam apropriados por terceiros, mas sigam pertencentes aos povos, com direitos e garantia de continuidade nos territórios.

“O trabalho realizado é muito bonito por parte das lideranças indígenas agentes de cultivo. Além da plantação, eles realizam treinamento, sensibilização e capacitação de outros profissionais da saúde indígena e da população em geral para utilização das plantas medicinais. Essa ação precisa ser continuada e se consolidar como política pública, ampliando para demais territórios”.
Lucas Guerra
Coordenador do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei)

Aleksandra vai ao encontro da mesma opinião. Para ela, é importante a garantia de que não apenas povos indígenas sejam beneficiados com o projeto, mas, com o tempo, todos os municípios do Ceará. “Isso favoreceria que outras cidades implantassem o projeto. Muitas têm esse desejo, mas se perguntam onde vão tirar recursos para isso – da assistência farmacêutica, do hospital? – por isso a necessidade de recurso próprio”.

Mediante contato direto com o Ministério da Saúde, outra proposta é que a política pública alcance outros Estados brasileiros, em ritmo de disseminação de ideias e transformações.