O ano de 2023, além de ser o mais quente já registrado, também marca a primeira vez em que todos os dias, de 1º de janeiro a 31 de dezembro, ficaram 1°C acima da era pré-industrial. E o quê a sua alimentação tem a ver com isso? É importante saber que o atual sistema agroalimentar cria um “ciclo vicioso”, no qual os impactos climáticos podem aprofundar a insegurança alimentar. Ou seja, a forma como os alimentos são produzidos e distribuídos contribui para as mudanças climáticas, que, por sua vez, influenciarão na diminuição da produção e tornarão nossa alimentação menos nutritiva. Confira algumas das questões centrais:
Beneficiamento e transporte
Até chegar ao supermercado, o alimento pode passar por diversas etapas. Procedimentos que podem incluir pré-limpeza, secagem, limpeza, seleção, processamento, armazenagem, entre outros; etapas que são responsáveis por alto consumo de energia. Além disso, no Brasil estes produtos dependem essencialmente do transporte rodoviário, que emite gases do efeito estufa (GHG) pela queima de combustíveis fósseis, além dos gases fluorados (HFCs), utilizados na refrigeração de caminhões frigoríficos.
Emissões da produção agropecuária
A produção de alimentos também emite gases que contribuem para o aquecimento global. O desmatamento é o principal responsável por 70,6% das emissões das cadeias produtivas da carne bovina, seguido pelas emissões diretas do rebanho (29,9%) – ou seja, gases que os animais emitem a partir de seu processo digestivo. A emissão de metano está relacionada justamente com a fermentação entérica (processo digestivo do animal) e dos dejetos. E ainda há a emissão de óxido nitroso decorrente da decomposição do nitrogênio no esterco e na urina do gado e da reação dos nitratos de fertilizantes artificiais com o oxigênio do ar (quase 300 vezes mais poderoso que o dióxido de carbono).
Impacto na renda dos produtores rurais
Com eventos climáticos extremos mais recorrentes e intensos, o estresse por calor reduz a frutificação e acelera o desenvolvimento de vegetais. O amadurecimento acelerado dos frutos pode levar à perda de safras, ainda no plantio, e a um elevado desperdício em toda a cadeia de produção, distribuição e consumo.
Chuvas intensas e localizadas, alternadas com períodos de seca, podem ser bastante prejudiciais ao bom desenvolvimento, especialmente das hortaliças e frutas mais sensíveis. Isso cria ainda mais dificuldade de planejamento: agricultores e pecuaristas organizam a produção a partir da sazonalidade climática, mas eventos climáticos extremos trazem grande imprevisibilidade.
Mudanças no uso da terra
A mudança no uso ou na cobertura da terra ou do solo é um processo pelo qual as atividades humanas transformam a paisagem natural, formada pelos biomas originais de cada região, muitas vezes com vistas a um papel funcional da terra para atividades econômicas. As mudanças na cobertura do solo têm grande potencial de desencadear reações em cadeia no ecossistema, afetando as condições de vida das pessoas e de outras espécies que habitam a região transformada e suas redondezas. No Brasil, essas mudanças são marcadas pela destruição da floresta nativa, comumente nomeada “desmatamento”, para expansão da agricultura e da pecuária, resultando em áreas de plantio e pasto.
Desde 2015, o MapBiomas produz um mapeamento anual da cobertura e uso da terra no Brasil, monitorando também a superfície de água e as cicatrizes causadas pelo fogo mensalmente com dados a partir de 1985.
Mudanças climáticas
A partir da Revolução Industrial, as atividades humanas têm sido o principal causador do aumento de temperatura, que é decorrente da elevada emissão de gases de efeito estufa, sobretudo devido à queima de combustíveis fósseis, desmatamento e agropecuária intensiva. Essas atividades têm provocado redução da biodiversidade, além do aumento na frequência e intensidade de eventos climáticos extremos, como secas, enchentes e tornados, que vêm ficando conhecidas como “mudanças climáticas”.
Plantio de commodities
O atual modelo de produção no Brasil tem priorizado o plantio de commodities, ou seja, matérias-primas de baixo valor agregado, como soja e milho, que são cultivadas numa lógica de monoculturas em amplas extensões de terra. Há 10 anos, na safra 2013/2014, a soja ocupava 30,1 milhões de hectares do Brasil. De lá pra cá, a leguminosa se expandiu pelo território nacional e alcançou os 43,8 milhões de hectares. Na próxima década, chegará aos 55,8 milhões, segundo projeções da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o que significa um aumento de 85% em 20 anos. Isso representa redução da biodiversidade local e redução da disponibilidade de alimentos que compõem o padrão alimentar de nossa população, como o arroz e o feijão.
Prejuízo à composição nutricional
Uma importante consequência das mudanças climáticas é o prejuízo à composição dos alimentos, o que aumentará o desafio de acabar com a fome e alcançar a segurança alimentar e nutricional em todo o mundo – alguns dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU. Altas concentrações de CO2 na atmosfera ameaçam reduzir os teores de nutrientes essenciais de alimentos básicos.
A concentração elevada de CO2 pode reduzir o teor de ferro e zinco em grãos e, além desses, também o teor de cálcio e magnésio em vegetais de raiz, como mandioca, batata, cenoura e beterraba.
Produtos ultraprocessados
Os alimentos ultraprocessados são aqueles fabricados essencialmente a partir de ingredientes fracionados por processamento, e acrescidos de aditivos cosméticos que lhes conferem maior intensidade de cor, aroma, sabor, textura, além de maior durabilidade . Geralmente, possuem altos teores de açúcar, sal e gorduras, e baixos teores de vitaminas, minerais, fibras e compostos bioativos.
Sua composição é largamente baseada em commodities (trigo, milho e soja), eles demandam uma grande quantidade de terra em sua produção, principalmente aqueles de origem animal, como as carnes processadas (Ex.: hambúrgueres, embutidos). Também demandam alta quantidade de energia ao longo de todas as etapas da cadeia produtiva (processamento, produção de embalagens e transporte por longas distâncias), além de gerarem grande quantidade de resíduos, especialmente a partir de suas embalagens, frequentemente plásticas.
Redução na disponibilidade e aumento no preço
A perda de safras impacta tanto na disponibilidade quanto no preço dos alimentos, tornando-os mais caros. Até 2050, o aquecimento global pode reduzir as áreas de cultivo de café e a produção de milho pode cair 25%. No norte do Brasil, produtores já enfrentam dificuldades no cultivo do açaí e comunidades indígenas sofrem com a escassez de mandioca, que é central em sua cultura alimentar.
As mudanças climáticas têm sido apontadas por estudos como um elemento potencial de aumento global nas taxas anuais de inflação de alimentos em até 3,2% ao ano até 2035. E isso já se verifica na prática, seja localmente ou em relação às commodities negociadas em bolsas de valores, o que aflige as populações locais e preocupa bancos centrais de diferentes países.
Sindemia global
A crise climática influenciada pelo atual sistema agroalimentar e suas consequências sobre as diferentes formas de má-nutrição – fome, desnutrição e obesidade – são um grande risco para a humanidade, num processo chamado de sindemia global.
A sindemia considera que as pandemias da obesidade e da desnutrição encontram-se atreladas às mudanças climáticas no tempo presente e na causalidade e consequências de cada uma delas. No Brasil, a sindemia se reflete no cenário de aumento da fome concomitante ao aumento da obesidade, o que está relacionado ao aumento do consumo de produtos ultraprocessados.
Sistema agroalimentar brasileiro
O sistema agroalimentar é bastante amplo e complexo, e envolve todos os elementos – ambiente, pessoas, insumos, processos, infraestrutura, instituições – e também as atividades relativas à produção, ao processamento, à distribuição, ao preparo e ao consumo de alimentos, englobando também vetores como os ambientais, os políticos, econômicos, e socioculturais, além de subsistemas, como as cadeias de suprimento de alimentos, os ambientes alimentares, o comportamento alimentar e as dietas dos indivíduos. A agricultura, pecuária, silvicultura e pesca compõem o sistema agroalimentar brasileiro, que respondeu, em 2021, por mais de 73% das emissões de gases de efeito estufa no país, de acordo com o Observatório do Clima.
BIBLIOGRAFIA (clique para mostrar) ▼
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Gabrielle de Paula é jornalista e mestra em comunicação e informação no PPGCOM/UFRGS (Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul). É coordenadora de comunicação da Cátedra Josué de Castro.
Estela Sanseverino é gestora ambiental pela EACH-USP (Universidade de São Paulo) e mestranda no PROCAM-USP (Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental da Universidade de São Paulo). Pesquisadora da Cátedra Josué de Castro.
Nadine Marques Nunes Galbes é nutricionista, mestra e doutora em saúde pública pela FSP-USP (Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo). É pesquisadora assistente da Cátedra Josué de Castro.
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