Mais um projeto redentor para o Norte Fluminense

Por Arthur Soffiati

Anuncia-se pela imprensa mais um projeto redentor para o Norte Fluminense. Ele vai gerar muitos empregos e contribuir para o enriquecimento dos cofres públicos municipais. Será instalado na foz do rio Paraíba do Sul. Para tanto, as ilhas da Convivência e do Pessanha serão removidas, o leito do rio será rebaixado numa extensão de um quilômetro. A areia tão necessária para o engordamento da praia de Atafona enfim será conseguida. O projeto pretende a redenção de Atafona.

A intenção ainda não é clara nem para o grupo empresarial responsável pelo projeto, mas a ideia é construir um porto de pedra na extensão de um quilômetro, não se sabe se na margem direita ou esquerda. O aprofundamento da foz permitirá a entrada de plataformas de exploração de petróleo para descomissionamento ou reforma. Pode ser que o empreendimento permita alguma atividade mais, como a construção de navios. Poderia, portanto, ser também um estaleiro.

O mais atraente neste empreendimento é que ele não causará impactos ambientais. Os empreendedores vão retirar o maior manguezal da região e transportá-lo de Gargaú para o interior, levando, inclusive, as pastagens ilegais que existem no manguezal. Será criado o projeto “Caranguejo mais” para atender aos catadores e à Festa do Caranguejo, de São João da Barra.

Não haverá problema causado pela penetração da língua salina no rio, pois o empreendimento retirará água doce do aquífero Emboré para compensar a salinização. Se não der certo, o empreendimento instalará um programa de dessalinização de água do mar para atender a população. A pesca não será prejudicada. Ela poderá continuar a ser praticada no mar ou num rio que a empresa abrirá para os pescadores de água doce. Todas essas intervenções já foram licenciadas pelo Inea. Elas só trarão impactos positivos para o município, para região, para o estado, para o Brasil e para o mundo. As emissões gasosas serão mínimas e devidamente engarrafadas de acordo com um novo processo criado nos Emirados Árabes.

Agora falando sério, mudamos apenas de lugar. Um grande empreendimento, já licenciado pelo Inea e contando com o apoio das prefeituras de Campos e de Quissamã, será instalado em Barra do Furado. Melhor dizendo, no canal da Flecha. Para tanto, haverá um aprofundamento do canal no seu trecho final e a construção de um porto de novecentos metros. 

Visão aérea de Barra do Furado

O regime do estuário mudará. A área em que a água doce se mistura com a água salgada será maior. Para que a língua salina não penetre no canal da Flecha, de São Bento, de Quitingute e do Espinho, as comportas deverão ficar sempre fechadas. Inclusive a passagem franca no centro da bateria de comportas do canal da Flecha. Os produtores rurais deverão encontrar outro meio para escoar água de enchente na lagoa Feia, como fez seu antepassado José de Barcelos Machado. O manguezal, que se tornou tão amplo e viçoso, sofrerá alterações, mas é o preço que se deve pagar pelo progresso.

Parece que o autor dessas linhas não conhece o projeto, contestou um empresário. Na verdade, só os empreendedores conhecem. A população o conhecerá na audiência pública, que autorizará tudo. Mas, caro escritor, antes de criticar, veja a maquete. O projeto vai se localizar no lado de Campos, no espaço onde existe o espigão esquerdo do canal. Tanto ele quanto o de Quissamã serão removidos. Só não sabemos ainda como conter a erosão.

  Os responsáveis pelo empreendimento ainda não sabem o que fazer com os espigões de pedra na foz do canal. Não sabem como acabar com a retenção de areia do lado de Quissamã e como engordar o lado de Campos, já tão erodido. Mas a tecnologia tem solução para tudo. Como um todo, o projeto trará benefícios para o pescador artesanal. Ainda não se sabe como, mas trará. 

Os moradores de Barra do Furado podem contar com a paz do local, com as praias e com o desenvolvimento. O comércio ganhará muito com o empreendimento, que se somará ao porto de Macaé, ao complexo portuário do Açu e do porto de Presidente Kennedy.