
Índice criado na Uenf mede quanto da riqueza produzida permanece no município e aponta caminhos para transformar crescimento em qualidade de vida.
Há diversas metodologias para retratar o desenvolvimento socioeconômico de um município, estado ou região; e todas são fundamentais para que os gestores tracem panoramas e orientem seus investimentos a curto, médio e longo prazo. Hoje convido o leitor a conhecer uma ferramenta com as quais os governantes e especialistas em finanças estão pouco familiarizados: o Índice de Dinâmica Econômica Local (Indel).
Desenvolvido pelo Núcleo de Pesquisa Econômica do Rio de Janeiro (Nuperj), vinculado à Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) e tendo como mentor o professor e economista Alcimar das Chagas Ribeiro, o Indel oferece uma abordagem distinta dos índices tradicionais. Sua metodologia indica a capacidade do sistema econômico local de fixar internamente as receitas geradas, a partir de variáveis como investimento público, ICMS, movimentação bancária, emprego e renda no comércio e parcela não vulnerável da força de trabalho.
Esses indicadores são ponderados para formar um índice médio que varia de 0 a 1, oferecendo uma escala de avaliação mais precisa da dinâmica econômica local. Os resultados indicam baixa dinâmica do município/região (de 0,0 a 0,4 ponto), dinâmica regular (de 0,4 a 0,6 ponto), dinâmica moderada (de 0,6 a 0,8 ponto) e alta dinâmica (resultados superiores a 0,8 ponto).
O Indel leva em conta a “capacidade de absorção das externalidades positivas geradas por grandes projetos”. Em outras palavras: indica a habilidade que uma cidade ou região tem de aproveitar os benefícios que surgem quando um grande projeto é feito por perto. Por exemplo: quando uma grande obra, fábrica ou porto é construído, esse empreendimento pode trazer coisas boas que vão além do próprio projeto, como atração de empresas, movimento do comércio local e capacitação profissional. Mas, para que esses benefícios realmente cheguem às pessoas, a região precisa estar preparada – com boa educação, infraestrutura, políticas públicas e investimentos. Caso contrário, as riquezas beneficiam outros lugares com melhor estrutura.
Um fato em especial chama a atenção no Indel: nem sempre os municípios com maior valor adicionado fiscal lideram no Índice de Dinâmica Econômica Local. São municípios com uma cadeia produtiva robusta, mas que não são capazes de reter a riqueza gerada. Eles atraem trabalhadores – muitos deles altamente qualificados – que moram em cidades próximas, ou até mesmo em outros estados. Produzem no município, mas gastam o que ganham em outro.
São fatos que vão além da frieza dos números, mas que os gestores públicos precisam olhar com mais atenção. Como mensagem estratégica, o Indel transmite a urgência de investir em infraestrutura, planejamento urbano e políticas que promovam a qualidade de vida. O índice mostra que não basta gerar riqueza — é preciso criar condições para que essa riqueza permaneça e beneficie a população local.
Afinal, quando falamos em desenvolvimento, felicidade e bem-estar, estamos falando em pessoas. E há muito mais em jogo do que valores ou arrecadação. Estamos falando do direito de viver bem onde se trabalha, de ter acesso a oportunidades e de sentir que o crescimento econômico se traduz em melhoria de vida para todos. O Indel ajuda a enxergar isso — e, mais importante, a agir para que essa transformação aconteça de forma concreta e duradoura.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Editora O DIA