segunda-feira, março 23, 2026

Descarte de medicamentos e sustentabilidade: os impactos ambientais e as alternativas para o tratamento desses resíduos

descarte de medicamentos

O descarte inadequado de medicamentos é um tema que vem ganhando cada vez mais relevância no debate sobre sustentabilidade, proteção ambiental e saúde pública. Produtos farmacêuticos descartados incorretamente podem gerar impactos ambientais significativos e representar riscos para os ecossistemas e para os recursos hídricos.

Segundo a farmacêutica Renata Machado Lima Donnici, profissional com experiência na indústria farmacêutica e em gestão ambiental de resíduos do setor de saúde, ainda existe uma lacuna importante de informação sobre o destino adequado desses produtos.

Muitas pessoas ainda descartam medicamentos no lixo comum ou no vaso sanitário sem perceber que esses produtos contêm substâncias químicas capazes de impactar o meio ambiente e os sistemas de água”, explica Renata Machado Lima Donnici.

Quando descartados de forma inadequada, os princípios ativos presentes em medicamentos podem alcançar o solo e os recursos hídricos. Estudos ambientais em diversos países já identificaram a presença de resíduos farmacêuticos em rios, lagos e outros ambientes aquáticos.

Os sistemas convencionais de tratamento de água e esgoto nem sempre foram projetados para remover completamente moléculas farmacológicas complexas, o que pode permitir que pequenas concentrações dessas substâncias permaneçam no ambiente”, observa Renata Machado Lima Donnici.

Além dos impactos ambientais, especialistas também destacam que o manejo inadequado desses resíduos pode gerar riscos associados à exposição ambiental a compostos farmacológicos.

Logística reversa e gestão responsável de resíduos

Nos últimos anos, diversos países passaram a implementar programas de logística reversa de medicamentos, permitindo que consumidores devolvam medicamentos vencidos ou em desuso em farmácias e pontos de coleta específicos.

Esses programas fazem parte de estratégias mais amplas de gestão sustentável de resíduos farmacêuticos, garantindo que esses produtos sejam encaminhados para sistemas apropriados de tratamento.

A logística reversa é um mecanismo importante dentro dos sistemas de gerenciamento de resíduos farmacêuticos, pois permite que medicamentos retornem para uma cadeia controlada de tratamento ambientalmente seguro”, explica Renata Machado Lima Donnici.

Após a coleta, esses materiais são encaminhados para empresas especializadas em gerenciamento de resíduos perigosos, onde passam por processos de tratamento ou destruição em conformidade com normas ambientais e sanitárias.

Como os medicamentos são destruídos

Tradicionalmente, a incineração tem sido um dos métodos mais utilizados para a destruição de medicamentos. Esse processo utiliza altas temperaturas para degradar os compostos químicos presentes nos produtos farmacêuticos.

No entanto, alternativas tecnológicas também vêm sendo avaliadas dentro das estratégias modernas de gestão ambiental de resíduos industriais.

Dependendo das características do resíduo farmacêutico e das avaliações técnicas e ambientais necessárias, alguns materiais podem ser tratados por meio de tecnologias como o co-processamento, que utiliza fornos da indústria cimenteira para promover a destruição segura desses resíduos”, explica Renata Machado Lima Donnici.

Co-processamento e soluções sustentáveis

O co-processamento em fornos de cimento é uma tecnologia amplamente utilizada no tratamento de determinados resíduos industriais. Nesse processo, os resíduos são utilizados como fonte alternativa de energia ou matéria-prima no processo produtivo do cimento.

Os fornos de cimento operam em temperaturas que podem ultrapassar 1.400 °C, garantindo a destruição segura de compostos orgânicos presentes nos resíduos.

Quando tecnicamente viável e devidamente autorizado pelos órgãos ambientais, o co-processamento pode representar uma alternativa sustentável para o tratamento de determinados resíduos farmacêuticos, pois além de promover a destruição segura dos compostos, também contribui para a redução do uso de combustíveis fósseis na indústria do cimento”, afirma Renata Machado Lima Donnici.

Essa abordagem está alinhada com os princípios da economia circular e da sustentabilidade industrial, que buscam transformar resíduos em insumos úteis dentro de processos produtivos.

Conscientização e responsabilidade compartilhada

Apesar dos avanços regulatórios e tecnológicos, especialistas destacam que a conscientização da população ainda é um fator essencial para reduzir os impactos ambientais associados ao descarte inadequado de medicamentos.

Consumidores têm um papel importante na proteção ambiental e na saúde pública ao garantir que medicamentos vencidos ou não utilizados sejam encaminhados para pontos de coleta apropriados”, ressalta Renata Machado Lima Donnici.

Para a especialista, o avanço de políticas públicas, programas de logística reversa e tecnologias de tratamento ambiental deve caminhar lado a lado com iniciativas de educação ambiental.

A gestão adequada de resíduos farmacêuticos envolve toda a cadeia — indústria, distribuidores, farmácias, empresas de gestão de resíduos e consumidores. O fortalecimento desses sistemas é fundamental para reduzir riscos ambientais e proteger os recursos naturais”, conclui Renata Machado Lima Donnici.


Sobre a autora

Renata Machado Lima Donnici é farmacêutica com experiência na indústria farmacêutica e em programas de compliance ambiental e gestão de resíduos farmacêuticos. Ao longo de sua carreira, participou de iniciativas relacionadas à gestão segura de resíduos do setor de saúde, incluindo projetos voltados à destinação ambientalmente adequada e à implementação de soluções sustentáveis para o tratamento de resíduos farmacêuticos. É membro da National Environmental Health Association (NEHA), da American Pharmacists Association (APhA) e da International Society for Pharmaceutical Engineering (ISPE).