Quando a paisagem distópica de Matteo Wong chegar ao Açu

Por trás da aparente imaterialidade da inteligência artificial existe uma gigantesca infraestrutura industrial cuja expansão começa a produzir conflitos por energia, água e território

A inteligência artificial costuma ser apresentada como uma espécie de manifestação máxima da desmaterialização da economia. Falamos em algoritmos, nuvens, modelos e processamento de informações como se tudo isso acontecesse em algum espaço virtual separado do mundo físico. A reportagem de Matteo Wong, publicada pela The Atlantic sob o sugestivo título Inside the Dirty, Dystopian World of AI Data Centers, desmonta essa fantasia ao mostrar que a chamada revolução da inteligência artificial depende de uma infraestrutura extraordinariamente material, formada por gigantescos galpões repletos de servidores, linhas de transmissão, subestações elétricas, sistemas de refrigeração, geradores e, cada vez mais, usinas destinadas a alimentar uma demanda energética que cresce em velocidade impressionante.

O exemplo mais impressionante apresentado por Wong é o Colossus, data center construído pela xAI em Memphis, nos Estados Unidos. Funcionando em sua capacidade máxima durante um ano, o complexo pode consumir eletricidade equivalente à utilizada por cerca de 200 mil residências norte-americanas. Quando outras instalações previstas pela empresa estiverem operacionais, a demanda poderá chegar perto de 2 GW. A dimensão desse processo fica ainda mais evidente quando se observa que a OpenAI anunciou instalações cuja demanda agregada poderá ultrapassar 30 GW, enquanto a Agência Internacional de Energia estima que, já em 2030, os data centers poderão consumir nos Estados Unidos mais eletricidade do que todas as indústrias pesadas do país somadas.

A consequência é que a expansão da inteligência artificial começa a produzir uma corrida paralela pela produção de energia. E aqui surge uma das maiores contradições do discurso que apresenta a digitalização como parte de uma economia supostamente limpa. Para colocar rapidamente o Colossus em operação, a xAI recorreu a dezenas de turbinas movidas a gás natural, enquanto novos projetos de data centers estão estimulando a construção de termelétricas e até prolongando a vida útil de usinas movidas a carvão. Segundo Wong, a própria Agência Internacional de Energia estima que as emissões associadas aos data centers poderão mais que dobrar até 2030.

Mas eletricidade é apenas uma parte do problema. Os chips utilizados nos sistemas de inteligência artificial consomem enormes quantidades de energia e produzem muito calor, o que transforma a refrigeração em uma necessidade permanente. Em muitos casos isso significa também consumir grandes volumes de água. Registros públicos citados pela The Atlantic mostram que o endereço onde funciona o Colossus utilizou mais de 11 milhões de galões de água apenas em setembro, quantidade equivalente ao consumo anual de aproximadamente 150 residências norte-americanas.

O problema ganha outra dimensão quando os data centers começam a se concentrar territorialmente. Loudoun County, na Virgínia, oferece talvez a melhor antecipação do que pode acontecer em outras regiões. Ali já existem 199 data centers em operação e cerca de outros 30 planejados. A concentração foi tão intensa que surgiu uma paisagem conhecida como Data Center Alley, formada não apenas pelos enormes prédios que abrigam servidores, mas por subestações, torres, linhas de transmissão, sistemas de refrigeração e dezenas de geradores de emergência. Em outras palavras, o data center não deve ser compreendido apenas como um empreendimento imobiliário ou tecnológico isolado. Ele cria ao seu redor uma verdadeira ecologia industrial destinada a garantir permanentemente energia, refrigeração, água e conectividade.

Existe ainda uma questão econômica que merece atenção. Apesar das centenas de bilhões de dólares atualmente direcionadas para essa infraestrutura, Wong lembra que permanece aberta a discussão sobre a sustentabilidade econômica desse gigantesco ciclo de investimentos. Caso as expectativas depositadas na inteligência artificial não se confirmem ou avanços tecnológicos reduzam drasticamente a necessidade de processamento, parte da infraestrutura atualmente planejada poderá tornar-se o que o próprio artigo descreve como ruínas de um futuro que não chegou. O problema é que as usinas, linhas de transmissão, alterações territoriais e impactos ambientais necessários para alimentar essa corrida estarão materializados muito antes de sabermos se todas essas apostas econômicas se sustentarão.

E quando a nuvem chegar ao Porto do Açu?

Essa discussão ganha importância imediata para o Norte Fluminense. A empresa britânica Yamna acaba de reservar inicialmente 20 hectares dentro do complexo industrial do Porto do Açu para instalar um campus de data centers de hiperescala preparado para inteligência artificial, com direito preferencial de expansão para outros 20 hectares. Somente a primeira fase prevê 250 MW de capacidade, e a própria empresa informa que o empreendimento foi concebido para poder crescer posteriormente.

É justamente a expressão “250 MW na primeira fase” que deveria acender um sinal de alerta. O que está sendo anunciado não parece ser simplesmente a construção de um data center, mas a abertura de uma nova frente de expansão industrial no interior de um complexo que já reúne termelétricas, instalações de petróleo e gás, terminais de minério e granéis, estruturas logísticas e numerosos projetos industriais. A disponibilidade de cerca de 3 GW de capacidade termelétrica instalada da GNA e de infraestrutura de transmissão de 500 kV é apresentada, inclusive, como uma das vantagens competitivas do Açu para atrair essa nova indústria.

No caso de São João da Barra, porém, há uma questão adicional que não pode ser tratada como detalhe: a água. A instalação de um empreendimento potencialmente intensivo em refrigeração ocorre em uma região costeira onde a disponibilidade e a qualidade dos recursos hídricos já constituem problemas ambientais relevantes. Por isso, antes que o empreendimento seja celebrado como mais uma demonstração da suposta modernidade do Porto do Açu, será indispensável conhecer qual tecnologia de refrigeração será utilizada, qual será a demanda hídrica máxima e média, de onde virá essa água, quais serão os volumes efetivamente consumidos e descartados e, sobretudo, como essa nova demanda será analisada diante das pressões cumulativas já existentes sobre os recursos hídricos regionais.

Esse último aspecto é fundamental porque a discussão ambiental não pode continuar sendo feita empreendimento por empreendimento, como se cada instalação surgisse sobre uma folha em branco. A questão central é compreender os impactos cumulativos e sinergísticos produzidos pela sucessiva concentração de grandes projetos sobre um território costeiro ecologicamente sensível, já submetido à erosão, salinização, transformação de sistemas lagunares, industrialização acelerada e restrições crescentes aos modos tradicionais de utilização do território.

O artigo de Matteo Wong ajuda justamente a retirar os data centers do mundo aparentemente imaterial da “nuvem” e recolocá-los onde efetivamente existem: no território. E talvez seja essa a pergunta que São João da Barra deveria fazer antes que mais um grande empreendimento seja incorporado à paisagem do Açu: quanta energia, quanta água e quanto território serão necessários para sustentar essa nova fronteira industrial e quem ficará com os benefícios e com os custos ambientais dessa transformação?

Porque a nuvem que está chegando ao Porto do Açu não paira no céu. Ela ocupa terra, consome energia e pode beber muita água.