Por Arthur Soffiati
Gênero australiano da família das Mirtáceas, com um grande número de espécies, supõe Pio Corrêa que o eucalipto foi trazido da Austrália para o Brasil em meados do século XIX, levando-se em conta dois exemplares existentes no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Seriam os mais antigos do Brasil (CORRÊA, Manuel Pio. Dicionário das plantas úteis do Brasil e das exóticas cultivadas, 6 vols. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional (do vol. I ao III), 1926-1952; Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (do vol. IV ao VI), 1969-1978). Na Austrália, seu ambiente nativo, a distribuição da espécie Eucalyptus globulus, a mais conhecida de todas, tem reduzida área de distribuição.

Cláudia Heynemann observa que o Eucalyptus globulus, a espécie preferida no Brasil, foi oferecido pela Sociedade de Aclimação Parisiense ao Imperial Instituto Fluminense de Agricultura por volta de 1872 (HEYNEMANN, Cláudia. Floresta da Tijuca: natureza e civilização. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura/Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural/Divisão de Editoração, 1995). A 12 de janeiro de 1874, um ofício do Dr. Peralva, lido na Câmara Municipal de Campos, propôs que se solicitasse ao Ministério da Agricultura a remessa de 250 mudas de Eucalyptus globulus e grande quantidade de sementes do mesmo, com a intenção de efetuar o plantio da espécie na cidade de Campos e nos seus distritos, difundindo-se pela imprensa as suas virtudes, modo de plantar e cuidados a serem observados

Estudando o processo de industrialização de São Paulo, Warren Dean esbarrou no problema da energia. Detendo-se nele, concluiu que a falta de jazidas de carvão e de petróleo condicionaram, desde o princípio, o desenvolvimento da indústria à instalação de hidrelétricas. Estas, contudo, não chegavam a responder nem por um quarto das necessidades do parque industrial em franco crescimento, o que levou os empresários a recorrerem às ainda abundantes florestas nativas do Estado. Com a rápida destruição das florestas, a Companhia Paulista de Estradas de Ferro criou um serviço florestal e contratou Edmundo Navarro de Andrade para chefiá-lo. Este especialista foi o responsável pelo plantio do eucalipto em larga escala para a geração de energia (DEAN, Warren. A floresta como fonte de energia na urbanização e na industrialização de São Paulo: 1900-1950. Comunicação apresentada na sessão plenária sobre “Industrialização, Urbanização e Energia Elétrica”. São Paulo: 21/10/1986, datil). Além deste uso, as espécies de eucalipto foram empregadas na produção de celulose e de dormentes para ferrovias bem como no “saneamento”.
Na baixada dos Goitacases, considerada insalubre por suas lagoas e brejos, o eucalipto foi eleito como a planta que poderia ajudar a purificar o ambiente. Em notícia publicada em 1934, podia-se ler: “Entre os lembretes ultimamente surgidos com o fito de comporem melhor a cidade, é aceitável, à primeira vista, o que expendeu, pelas colunas primeiras da Folha do Comercio o ilustre cientista patrício Simoens da Silva, que há pouco nos visitou. Lembrou ele a conveniência de se fazer o plantio de eucaliptus na parte de Guarulhos, fronteira à cidade, o que melhorará grandemente o aspecto do Norte” (“Coisas da cidade – O chafariz da Praça vai ser iluminado – As colunas do Obelisco – O plantio de eucaliptus em Guarus”. Folha do Commércio. Campos: Associação Comercial de Campos, 06/05/1934).

A espécie exótica aparecia, assim, como um elemento embelezador e saneador. Uma de suas utilizações mais confusas e perigosas refere-se ao reflorestamento. Até mesmo o antigo Código Florestal, instituído pela Lei Federal 4771/65, no seu controvertido artigo 19, autorizava a substituição total de uma floresta nativa por monocultura de árvores, recaindo a preferência no eucalipto. Quando, em novembro de 1934, a Sociedade dos Amigos de Alberto Torres pediu mudas de árvores à Secretaria de Produção do Estado do Rio de Janeiro para o reflorestamento do Norte Fluminense, a resposta obtida do Secretário, Capitão Pelio Ramalho, foi a seguinte: “Em resposta ao vosso telegrama de 5 do corrente mês, comunico-lhe que os Nortes deste Estado podem dispor de qualquer quantidade de mudas de eucaliptus, porções limitadas de mudas de nogueiras (Acineirites mollucana), oiti, pau ferro e muitas outras madeiras de lei, para fornecer aos Clubs Agrícolas Escolares mantidos no território fluminense” (MUSEU DE CAMPOS DOS GOITACASES. Requerimento de 12 de janeiro de 1874).
Quando a Aracruz Celulose começou a se instalar no Espírito Santo, a voz potente do naturalista Augusto Ruschi se levantou. A empresa contratou especialistas para demonstrar que o eucalipto não ressecava o solo, não propiciava incêndios e não empobrecia a biodiversidade (RUSCHI, Augusto. O eucalipto e a ecologia. Boletim do Museu de Biologia Prof. Melo Leitão nº 44. Santa Teresa: Museu de Biologia Prof. Mello Leitão, 31/05/1976). A economia prevaleceu sobre a ciência. Ruschi demonstrou exatamente o contrário.
Diante do declínio da cana-de-açúcar no Norte Fluminense, a cultura do eucalipto foi apresentada como alternativa para a economia rural (GOLFARI, L. e MOOSMEYER, H. Manual de reflorestamento do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. BD Rio, s/d.). Os autores do estudo apresentaram um fator limitante para o plantio do eucalipto na planície fluviomarinha de Campos: a excessiva umidade, mesmo depois de toda a colossal obra de drenagem efetuada pelo Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS) entre 1940 e 1990.
Quando a Aracruz manifestou a intenção de expandir a monocultura do eucalipto para o Estado do Rio de Janeiro, houve uma série de manifestações de protesto no Norte-Noroeste fluminense que culminaram com encontros no Rio de Janeiro e com a promulgação da Lei nº 4063/2003, de autoria do Deputado Estadual Carlos Minc, dispondo sobre a obrigatoriedade de promover o zoneamento ecológico-econômico de todo o território estadual e definindo as áreas onde o eucalipto poderia ser plantado.
O governador Sérgio Cabral enviou à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro o projeto de lei nº 383/2007, alterando a Lei Minc. O projeto de lei nº 383 mudou significativamente a Lei para pior. O Noroeste precisava (e precisa) de ações governamentais para restaurar e revitalizar as Áreas de Preservação Permanente com espécies nativas; para criar unidades de conservação e para promover a agricultura familiar diversificada visando a produção de alimentos.
Pela segunda vez, o plantio de eucalipto não conseguiu se implantar nas duas regiões. Agora, uma nova investida volta a ameaçá-las com um programa urdido em segredo e, por fim, anunciado pela prefeitura de Campos dos Goytacazes publicamente em meados de 2025. Um engenheiro agrônomo participou de uma das reuniões para discutir a implantação da nova monocultura e trouxe informações sigilosas. O porto do Açu estaria estimulando o projeto para o fornecimento de gravetos de troncos de eucalipto para aquecer o inverno dos europeus.
Já na versão oficial da prefeitura de Campos, o plantio de eucalipto seria restrito a algumas áreas previamente definidas. Mas não houve informações detalhadas a respeito das áreas escolhidas. No entanto, proprietários rurais informam ter sido procurados pelo governo municipal de Campos com a intenção de aderirem ao plantio, dentro e fora do território municipal. Não houve nenhum plano de zoneamento agroecológico em Campos e nos outros municípios.
O eucalipto não é a melhor alternativa para o desenvolvimento do Noroeste Fluminense. Ao contrário, ele pode agravar ainda mais a lastimável situação da região, que, em 1500, tinha uma cobertura de 100% de mata atlântica. A monocultura do eucalipto não representará a redenção das duas regiões. O Noroeste Fluminense, particularmente, precisa de ações governamentais para restaurar e revitalizar as áreas de preservação permanente com espécies nativas; para criar unidades de conservação; e para promover a agricultura familiar diversificada visando a produção de alimentos. Não é entregando à monoatividade do eucalipto duas regiões arrasadas por outras monoatividades que se resolverá o problema da desertificação, do declínio econômico, da pobreza e do êxodo rural. Com as mudanças climáticas, o eucalipto traz um novo perigo: os incêndios. Na Península Ibérica, a monocultura do eucalipto tem assolado extensas áreas rurais e núcleo urbanos com incêndios anuais. Em conversa com um engenheiro florestal no norte de Portugal e com um guia turístico na ilha da Madeira, o autor deste texto foi informado que os extensos plantios de eucalipto representam o perigo de incêndios devastadores, como o de Pedrogão, por exemplo. Anualmente, os incêndios em eucaliptais se sucedem.

A melhor solução para as duas regiões consiste na restauração e na revitalização dos ecossistemas aquáticos de água doce e dos terrestres com recursos dos royalties do petróleo. Trata-se de uma tarefa a ser coordenada pelo Poder Público dos diversos municípios em conjunto ou pelo governo do Estado, gerando emprego socioambientalmente útil.










