Vazamento na Foz do Amazonas não é um acidente — é um teste ético para o Brasil

O incidente na perfuração da Petrobras escancara uma pergunta incômoda: estamos preparados para explorar petróleo no último grande território vivo do planeta?

Por Oscar Lopes para o “Neomundo”

Não foi uma explosão.
Não houve óleo negro na superfície.
Não apareceu nenhuma imagem dramática de aves cobertas por piche.

E, ainda assim, o vazamento registrado durante a perfuração do poço FZA-M-59, na Foz do Amazonas, talvez seja um dos episódios ambientais mais simbólicos — e reveladores — dos últimos anos no Brasil.

Segundo documento interno da própria Petrobras, ao qual a imprensa internacional teve acesso, cerca de 15 mil metros cúbicos de fluido de perfuração vazaram para o mar a quase 2.700 metros de profundidade, em uma das regiões mais sensíveis e menos conhecidas do planeta. O incidente foi classificado como potencialmente capaz de causar danos ao meio ambiente ou à saúde humana. As atividades, por ora, estão suspensas.

A empresa afirma que o fluido é biodegradável, atende aos limites de toxicidade e que tudo está sob controle.

Mas talvez essa não seja a pergunta certa.

O vazamento não é o ponto final. É o ponto de partida

O debate público rapidamente se dividiu entre dois polos previsíveis:
de um lado, quem grita “tragédia ambiental”;
do outro, quem responde “foi contido, não há risco”.

Só que o episódio revela algo mais profundo — e mais desconfortável.

A Foz do Amazonas virou um laboratório de risco institucional

Ali, não se testa apenas tecnologia de perfuração em águas ultraprofundas. Testa-se a capacidade do Brasil de:

  • avaliar riscos reais em ecossistemas pouco mapeados;
  • ouvir comunidades tradicionais antes, e não depois;
  • alinhar discurso climático com decisões econômicas;
  • sustentar a própria credibilidade ambiental no cenário global.

Quando um vazamento acontece antes mesmo de qualquer descoberta comercial, o sinal de alerta não é técnico. É estratégico.

Um território invisível… até dar problema

A Bacia da Foz do Amazonas — também chamada de Margem Equatorial — abriga um sistema oceânico singular, com recifes profundos, alta biodiversidade e conexões diretas com o maior rio do planeta. É uma região onde ciência ainda está correndo atrás do básico: mapear, entender, descrever.

E é justamente aí que mora o paradoxo.

Como perfurar com segurança um território que ainda não conhecemos direito?

Organizações da sociedade civil questionam o licenciamento concedido pelo Ibama, apontando falhas graves:

  • ausência de consulta adequada a povos indígenas, quilombolas e pescadores;
  • uso de modelos de dispersão de impactos baseados em dados de 2013, quando já existem informações de 2024;
  • subestimação de cenários extremos em uma região de correntes marítimas complexas.

Nada disso é detalhe técnico. É governança ambiental.

O passado insiste em voltar

Este não é um capítulo isolado. Desde 1946, a Foz do Amazonas desperta interesse da indústria do petróleo. Entre 2001 e 2011, ao menos 11 poços foram perfurados. Em 2011, uma sonda da própria Petrobras chegou a ser arrastada por correntes marítimas intensas — um alerta ignorado por anos.

Depois de uma negativa em 2023, a autorização para o novo poço só veio em outubro de 2025, após recurso da estatal. Pouco depois, a empresa pediu licença para perfurar outros três poços contingentes: Manga, Maracujá e Marolo.

Em paralelo, no leilão da Agência Nacional do Petróleo, em junho de 2025, a Petrobras arrematou 10 dos 19 blocos disponíveis na região. Outras gigantes globais seguiram o mesmo caminho.

O recado é claro: a corrida pelo petróleo na Amazônia Azul começou.

O verdadeiro vazamento é de coerência

O Brasil já sediou a COP30, ocupou o centro do debate climático global e reforçou, nos discursos oficiais, seu compromisso com a biodiversidade, a transição energética e a liderança ambiental. Ao mesmo tempo, aposta alto na expansão da fronteira petrolífera mais sensível do país.

Esse vazamento não derramou apenas fluido de perfuração.
Ele derramou uma contradição.

Se tudo der certo, dirão que foi um incidente menor.
Se algo der errado, o custo será incalculável — ambiental, social e reputacional.

A pergunta que fica não é se o fluido era biodegradável.
É se a decisão política que levou até ali também é.

A Foz do Amazonas como espelho do Brasil

No fim das contas, a Foz do Amazonas não é só um território em disputa.
Ela virou um espelho.

Reflete quem somos quando crescimento econômico e proteção ambiental entram em conflito.
Reflete até onde vai, de fato, nosso compromisso com um futuro de baixo carbono.
E reflete se aprendemos algo com décadas de acidentes que sempre começam assim: pequenos, controlados, “dentro do previsto”.

Talvez o maior risco não esteja no fundo do mar.
Mas na superfície das decisões.

E esse, definitivamente, ainda não foi contido.