Por Arthur Soffiati
Dos 10 aos 20 anos, vivi em Padre Miguel, zona oeste do Rio de Janeiro. Eu tinha 10 anos quando cheguei e 20 quando saí. Lembro dos terrenos baldios onde jogávamos peladas e soltávamos pipas. Lembro dos charcos que se formavam com as chuvas. Lembro das pequenas matas que se formavam naturalmente nesses terrenos. Lembro da escuridão que reinava neles quando anoitecia.
A diversidade animal era então bem maior. Havia invertebrados que se tornaram raros, como paquinha, pulga, bicho-de-pé, bicho-pau, aranha-papa-mosca, besouro mangangá, barata francesinha e vagalume. Se não foram extintos, tornaram-se raros. Até mesmo a mosca doméstica não é mais tão comum.

O mundo noturno era mais encantado pelos vagalumes, insetos inofensivos que os meninos de rua capturavam e esfregavam na roupa a fim de que ela ficasse fosforescente. Não havia nenhuma piedade com os pequenos animais.
Já adulto, como historiador e pesquisador, encontrei uma fascinante página do príncipe naturalista Maximiliano de Wied-Neuwied, que promoveu uma expedição científica do Rio de Janeiro a Salvador entre 1815 e 1817. Ele incluiu na sua excursão uma visita a São Fidélis para conhecer remanescentes de povos indígenas que habitaram o Norte-Noroeste fluminense e parte da Zona da Mata Mineira. O percurso, feito a pé ou a cavalo, encantou ou príncipe, que escreveu em seu diário de viagem: “Nas sombras da floresta, esvoaçavam inúmeros insetos luminosos, gritavam curiangos, grandes cigarras se ouviam a extraordinária distância, e a estranha toada de um exército de rãs ressoava nas trevas noturnas da brenha solitária. Alcançamos, afinal, um campo à beira do rio, e achamo-nos de repente no meio das malocas dos índios Coroados de S. Fidélis”.
Os ouvidos e os olhos do príncipe foram invadidos por sons e luzes que eu conheci em menor escala em Padre Miguel. Ao reduzir a biodiversidade, extinguindo espécies, o ser humano, numa economia de mercado, torna-se mais solitário e mais frágil. Os pirilampos alegravam mais a vida, mas estão desaparecendo ou desapareceram. Quais os motivos para este sumiço ou extinção? Os cientistas apontam pelo menos quatro.

Primeiramente, a poluição luminosa. Não se deve pensar que os vagalumes iluminam o mundo para nossa alegria. O pisca-pisca deles visa atrair parceiros para a reprodução. Eles se atraem para se acasalar, como acontece com qualquer espécie animal, inclusive com a nossa, bem mais problemática. A luminosidade intensa emitida pelas cidades à noite, e agora também no meio rural, confunde os insetos. A luz branca e constante das cidades confunde os insetos, impedindo seu processo de acasalamento.
A destruição dos seus habitats é outro fator fundamental para o declínio das populações de vagalumes. Eles dependem de lugares úmidos e com vegetação nativa, como eu encontrava no subúrbio do Rio de Janeiro, onde vivi. Nas baixadas fluminenses, havia muitas áreas úmidas e florestas nas áreas altas. Havia muitas lagoas e brejos na planície. Eles foram drenados para atender a agricultura, a pecuária e as cidades. As larvas e os adultos de vagalume vivem nestes ambientes, destruídos nas baixadas. As últimas áreas úmidas significativas restaram nas lagoas do norte do estado do Rio de Janeiro. Mesmo assim, sempre ameaçadas pela poluição, pelos aterros, pela drenagem e pela urbanização.
Outro fator crucial para o desaparecimento dos vagalumes são os agrotóxicos. Se havia muitos deles no Cerrado, a substituição da vegetação nativa por grandes monoculturas com o uso intensivo de agrotóxicos mata o que se pretende matar e o que não se pretende. Vagalume não ataca lavoura, mas paga com a vida com a aspersão de veneno, inclusive matando os insetos que lhes servem de alimento.
Por fim, mas não por último, as mudanças climáticas têm grande responsabilidade no sumiço dos vagalumes. O aquecimento progressivo do planeta e as alterações de umidade dele decorrentes interferem negativamente na vida e na reprodução dos vagalumes ou pirilampos.

Cabe lembrar, por fim, que o Brasil abriga (ou abrigava) em torno de um terço das cerca de três mil espécies de vagalumes de todo o planeta. A maior concentração delas, no Brasil, está ou estava no bioma Mata Atlântica, o primeiro a ser destruídos pela colonização portuguesa. Cerca de 90% dos ecossistemas formadores da Mata Atlântica foram destruídos. Mais que preservar as áreas verdes, do tipo que o príncipe Maximiliano encontrou no caminho para São Fidélis, é preciso também reocupar as áreas devastadas com áreas úmidas e florestas. Nas cidades, a iluminação pública deve ser adaptada de modo a não contribuir para a extinção desses tão belos e importantes insetos para o equilíbrio ecológico.






