O artigo publicado por Evan Fraser no portal The Conversation lança um alerta que vai muito além das oscilações climáticas normalmente associadas ao fenômeno El Niño. O que está em jogo, segundo o autor, não é apenas a ocorrência de secas, enchentes ou ondas de calor mais intensas, mas a possibilidade de que um evento climático extremo atinja simultaneamente diferentes regiões produtoras de alimentos, desencadeando uma crise alimentar de escala global.
A preocupação não é infundada. A história demonstra que grandes episódios de El Niño costumam provocar perdas agrícolas significativas em diversas partes do mundo. Entretanto, o cenário atual apresenta uma diferença crucial: a agricultura mundial tornou-se mais integrada, mais dependente de cadeias logísticas globais e, paradoxalmente, mais vulnerável a choques sistêmicos. Quando várias regiões produtoras sofrem perdas ao mesmo tempo, os mecanismos tradicionais de compensação deixam de funcionar.
O argumento central de Fraser é particularmente relevante porque desloca o debate da produção agrícola para a questão da resiliência dos sistemas alimentares. A fome raramente é resultado apenas da falta física de alimentos. Ela surge quando falham simultaneamente os sistemas ecológicos, os mecanismos econômicos e as instituições encarregadas de proteger as populações vulneráveis. Em outras palavras, a fome é tanto um fenômeno político quanto ambiental.
A possível volta de um forte El Niño em 2026 ocorre em um contexto especialmente delicado. Os estoques globais de diversos alimentos estratégicos permanecem pressionados por conflitos geopolíticos, eventos climáticos extremos e pela crescente volatilidade dos mercados de commodities. Especialistas já alertam para a possibilidade de aumentos expressivos nos preços internacionais de arroz, milho, trigo, soja, café e açúcar caso as projeções mais pessimistas se confirmem.
Para o Brasil, os riscos assumem características particulares. Embora o país seja frequentemente apresentado como uma potência agrícola capaz de alimentar parte significativa do planeta, sua produção depende fortemente da estabilidade climática. A agricultura brasileira já enfrenta secas recorrentes na Amazônia, redução da disponibilidade hídrica em regiões do Cerrado e eventos extremos cada vez mais frequentes no Sul e Sudeste.
Nesse contexto, chama atenção a persistência de políticas que contribuem para ampliar a vulnerabilidade climática nacional. O avanço do desmatamento, especialmente na Amazônia e no Cerrado, reduz a capacidade dos ecossistemas de regular o ciclo hidrológico e enfraquece os chamados “rios voadores”, fundamentais para a distribuição de chuvas em grande parte da América do Sul. Assim, ao mesmo tempo em que o país se beneficia economicamente da expansão agroexportadora, ajuda a fragilizar os mecanismos naturais que sustentam sua própria produção agrícola.
Há ainda uma dimensão frequentemente negligenciada. O atual modelo agrícola global é altamente dependente de fertilizantes sintéticos, combustíveis fósseis e cadeias de transporte de longa distância. Isso significa que eventos climáticos extremos podem gerar efeitos em cascata, afetando não apenas as colheitas, mas também os custos de produção, a logística de distribuição e os preços finais dos alimentos.
O alerta de Fraser, portanto, não deve ser interpretado como uma previsão inevitável de fome global. Trata-se, antes, de um aviso sobre os limites de um sistema alimentar que se tornou extraordinariamente eficiente para gerar lucros, mas cada vez menos preparado para lidar com perturbações climáticas de grande escala.
Se um super El Niño vier a se materializar nos próximos meses, ele funcionará como um teste de estresse para a economia mundial. E talvez revele uma verdade incômoda: o maior risco não está apenas no clima que muda rapidamente, mas na incapacidade das instituições políticas e econômicas de se adaptarem à velocidade dessas mudanças.










