
No final de 2024 publiquei um livro com o título “Te vejo na próxima pandemia”. Além de uma longa reflexão a respeito da Covid19 e seu impacto no Brasil, focalizei também outros episódios marcantes, no Brasil ou no exterior, em que personagens chave ignoraram riscos e sensibilidades transformadas, no momento seguinte, em imensas crises.
O fio condutor dos dezoito capítulos da publicação recaia sobre comportamentos descompromissados ou irresponsáveis registrados em diferentes épocas e geografias que geraram vítimas, causaram grandes prejuízos materiais e reputacionais e até afetaram rumos da política. Enfim, situações limite que seriam perfeitamente evitáveis caso leituras adequadas de cenários e medidas preventivas tivessem sido postas em prática.
Esta quarta-feira (11) marca os exatos seis anos da decretação da Covid19 como pandemia pela Organização Mundial da Saúde. É um bom momento para pensarmos nas lições desse evento de alcance planetário que matou mais de 716 mil brasileiros pelos números oficiais — ou impressionantes 10% das mortes totais no globo (apesar de a população do país representar apenas 2,5% dos habitantes da Terra).
Pesquisas mostram que as pessoas hoje se lembram do início da pandemia como algo menos assustador do que pareceu naquele momento. As vacinas, antes vistas como salvação, viram as doses de reforço caírem no esquecimento ainda que o vírus, controlado, continue circulando.
Nunca é demais lembrar: há estimativas de que algo como 400 milhões de pessoas estejam vivendo com a chamada ‘Covid longa‘ em todo o mundo. Ou seja, algum tipo de sequela que pode se caracterizar por declínio cognitivo, cansaço permanente, dano cardíaco ou pulmonar. Embora essa seja uma realidade, a tendência é que coloquemos a Covid19 como uma página virada cada vez mais distante.
Respiramos fundo quando fica para trás o pior reflexo de uma ocorrência indesejável. E então seguimos em frente, revigorados. Em qualquer contexto, no entanto, ao baixarmos a guarda ampliamos as chances para que novas surpresas ou mesmo situações repetidas nos peguem despreparados. E com isso ficamos (cidadãos, empresas, governos) mais vulneráveis.
O Institute for Crisis Mananagement, dos Estados Unidos, produz anualmente um estudo relativo a crises de diferentes formatos em todo o mundo. Tradicionalmente, ele mostra que a grande maioria dos acontecimentos negativos – econômicos, humanitários, climáticos – é de certa forma detectável. Na última versão disponível desse trabalho ficamos sabendo que 75% deles são “smoldering”, ou seja, dão sinais prévios de que podem acontecer. Apenas 25% são “sudden”, isto é, surgem repentinamente a partir de baixa previsibilidade possível.
Tais números mostram que o exercício de um olhar cuidadoso e analítico que abra espaço às abordagens lógicas e às melhores práticas pode fazer diferença entre uma trajetória sem turbulências e o fracasso. Pesquisas, análises de dados, acompanhamento de tendências expressas nas redes sociais e simulações de cenários, por exemplo, são ferramentas capazes de driblar conjunturas indesejáveis ou, pelo menos, diminuir seu impacto quando elas vierem a ocorrer.
Então, fica a pergunta: será que aprendemos o suficiente com as crises que assistimos no Brasil nos últimos anos? A indagação vale para os dramas humanos que se repetem em regiões sempre assoladas por fortes chuvas velhas conhecidas do calendário, por exemplo. Vale também para escândalos corporativos que ganham o noticiário de tempos em tempos. E ainda para os caminhos sinuosos de certas verbas, orçamentos e penduricalhos discutíveis que povoam os cenários político e institucional.









