Perguntas e respostas sobre Barra do Furado

Por Arthur Soffiati

1- Barra do Furado sempre existiu?

Uma vez, eu visitava Barra do Furado e perguntei a um pescador antigo o que existia antes do canal da Flecha (não das Flechas, mas isto não importa). Ele me respondeu que não era um canal, mas um rio e que Deus o criou. Ele sempre existiu. Ninguém tem obrigação de conhecer história, mas eu, enquanto historiador, tenho.

Antes do canal, existia um mundo intrincado de canais naturais entre a lagoa Feia e a praia. O principal deles era o chamado rio Iguaçu (hoje com o nome de rio do Espinho), com curso de oeste para leste. No caminho, ele engrossava no Lagamar, onde recebia o rio Bragança, hoje não mais existente, e se dirigia para o cabo de São Tomé. No seu curso, recebia ainda o grande rio água Preta (formador do banhado da Boa Vista, hoje com o nome de canal do Quitingute) e desembocava no mar, onde hoje fica atualmente a barra do Açu.

2- Como era a costa de Barra do Furado quando os portugueses chegaram?

Quando os portugueses chegaram às terras que batizariam de Brasil, o território correspondente ao norte fluminense tinha as seguintes saídas para o mar: rio Itabapoana (chamado então de Managé), Guaxindiba, Paraíba do Sul, Iguaçu e Macaé. No território dos atuais São Francisco de Itabapoana, de Quissamã e de Carapebus, talvez existissem riachos que conseguiam chegar ao mar quando chovia, mas cujas barras se fechavam em tempos de estiagem. A costa que hoje se estende da barra do Açu à barra de Macaé não tinha nenhuma saída para o mar. Talvez muito raramente a chamada Barra Velha, no Lagamar, quando havia cheia extraordinária da lagoa Feia. Ali ficava a foz do rio Bragança, que ninguém mais conhece e da qual um naturalista alemão deixou um lindo desenho ao passar por ela em 1815.

3- Como surgiu Barra do Furado?

A vala do Furado foi aberta pela primeira vez em 1688 pelo grande proprietário rural José de Barcelos Machado. Ele percebeu que as águas de chuva eram represadas no continente por uma larga e alta barreira de areia feita pelo mar: uma duna. Ao romper essa barreira, a água escoava para o mar enquanto tinha força. Depois, o mar tapava novamente a vala. No ano seguinte, ela era aberta novamente. Os jesuítas se empenhavam nessa abertura anual com seus escravos. A localidade de Barra do Furado aparece em mapas do século XIX e é mencionada no romance “Mercedes”, escrito por Amelia Gomes de Azevedo e publicado em 1894.

Ao sul da lagoa Feia, até 1942, podia-se ver o rio Iguaçu. O traço vermelho indica o ponto aproximado da vala do Furado. O canal da Flecha ainda não havia sido aberto

4- Como se formou o canal da Flecha?

Em 1887-88, o engenheiro Marcelino Ramos da Silva concebeu e abriu um canal, batizado de Jagoroaba, entre a lagoa Feia e o mar no ponto em que havia mais proximidade da costa. Todo ele foi aberto em terreno de restinga. Logo, suar margens desabaram por situar-se ele em terreno arenoso. Sua extensão total, em linha reta, era de 4.576 metros, com largura média de 9 metros e profundidade média de 3 metros. Não deu certo. Voltou-se à vala do Furado, na margem direita da qual ergueu-se um pequeno povoado conhecido como Barra do Furado. Mas a ideia de abrir um canal ligando a lagoa Feia ao mar permaneceu. 

Entre 1942 e 1949, finalmente, o Departamento Nacional de Obras e Saneamento abriu o grande canal hoje conhecido como canal da Flecha. Foi o primeiro canal de engenharia, no norte fluminense, ligando um ambiente aquático continental (a lagoa Feia) ao mar. Depois, o mesmo órgão abriu outro ligando a lagoa do Campelo ao mar. Trata-se do canal Engenheiro Antonio Resende.  

Canal da Flecha da nascente, na lagoa Feia, à foz, no mar. Foto: DNOS

5- Quais empreendimentos foram projetados e executados em Barra do Furado?

O primeiro deles foi a vala do Furado, em 1688. O segundo foi o canal da Flecha, entre 1942-49. O terceiro foram as comportas no final do canal, em fins dos anos de 1970 e princípio dos anos de 1980. Como a força do mar fechava a foz do canal, a empresa Cobraulica, de Alair Ferreira, a serviço do DNOS, retirou pedra do morro do Itaoca para construir os dois espigões, colocando a foz do canal da Flecha dentro do mar. Não houve estudos de corrente marinha para esta obra. O resultado é que o espigão da direita, em Quissamã, retém areia que deveria ir para o litoral de Campos. Assim, a praia do lado esquerdo do canal começou a ser erodida. Tentou-se construir um terminal pesqueiro junto aos espigões para atender a navios pesqueiros de outros países. Tratava-se de pesca industrial. Não deu certo. Restaram apenas ruínas do prédio que seria o frigorífico deste terminal, do lado de Campos. Tentou-se ainda um complexo para atender a Petrobras em atividades meio obscuras. Mais recentemente, anunciou-se a instalação de uma termelétrica a gás natural. Volta-se agora ao bilionário projeto para descomissionar plataformas de exploração petrolífera na Bacia de Campos.   

6- Qual o futuro de Barra do Furado?

Os governos federal, estadual e municipais (Campos e Quissamã) sempre prometem mundos e fundos com os empreendimentos a serem implantados em Barra do Furado. A abertura do canal, a instalação das comportas e a construção dos espigões podem ter gerado empregos momentâneos, mas não melhoraras às condições de vida da população local. O entreposto pesqueiro foi um fracasso. A Chouest, que puxaria um dos projetos, acabou se alojando no Porto do Açu. A STX desistiu de investir no canal da Flecha. Não se ouve mais falar na termelétrica.

Não temos detalhes do novo empreendimento anunciado pelo prefeito de Campos, com a promessa de geração de empregos e promoção do “desenvolvimento”. Para a instalação de uma empresa de descomissionamento de plataformas de exploração de petróleo, será preciso aprofundar o canal da Flecha a fim de permitir a entrada das plataformas. Essa intervenção mudará o equilíbrio ambiental em grande trecho do canal, pois favorecerá a entrada de água salgada. Pode haver geração momentânea de emprego na fase de implantação do empreendimento, mas, na fase de operação, haverá desemprego e a utilização de mão-de-obra especializada, como aconteceu com a Petrobras e com o complexo do Porto do Açu.

Estamos em ano eleitoral. Promessas estão sendo feitas e muitas outras virão. O Porto já está empenhado em descomissionar plataformas. Não é preciso mais. A lógica dos políticos é diferente da lógica dos empresários. Os primeiros prometem geração de emprego e desenvolvimento. Os segundos avaliam a relação despesa-lucro. Se o projeto se instalar, teremos mais destruição que progresso, sobretudo para os pescadores. Se não se instalar, os políticos ficarão mais desmoralizados junto à opinião pública.