sexta-feira, agosto 28, 2026

‘Modelo absolutamente colonial’, alerta economista sobre pressão de data centers de IA no Brasil

Datacenters da Google nos Estados Unidos | Crédito: Alastair P. Wiper/ Google

Consumo desenfreado de água e energia, lixo tecnológico, barulho e vibração constantes nos territórios. Esses são alguns impactos dos mega data centers para treinamento de inteligência artificial. A economista e membro da coordenação da Rede Jubileu Sul, Sandra Quintela, destaca a pressão sobre os recursos naturais, mas também a perda da nossa soberania para empresas estrangeiras.

“Vai vir uma onda muito grande [no Brasil] com incentivo do governo, isenção fiscal, e de fato é um modelo de desenvolvimento absolutamente colonial”, disse ao Brasil de Fato

Na cidade do Rio, a prefeitura anunciou este ano o projeto “Rio AI City” com investimento previsto em US$ 550 milhões na infraestrutura digital da empresa Elea Data Centers. O projeto prevê a implantação de um complexo de data centers de inteligência artificial na região do Parque Olímpico, na Barra da Tijuca, zona sudoeste.

“Estamos vendo uma ofensiva para consumo de água e de energia, mas também a perda de soberania. Toda tecnologia vai vir importada, produz um lixo tecnológico absurdo. E uma coisa que ninguém está falando muito é o barulho. Imagina um monte de gerador, processador funcionando 24 horas, inclusive vibrando. Nos Estados Unidos, por exemplo, está tendo uma luta enorme contra os data centers pelo barulho, e pior que o parque eólico, porque a casa vibra, treme”, completa.

Segundo informações da gestão municipal, um acordo de cooperação firmado em junho entre a empresa Elea Data Centers e a Companhia Carioca de Parcerias e Investimentos (CCPar) formalizou a parceria entre as instituições para a implantação de um “complexo de inteligência artificial que pretende posicionar a capital fluminense entre os dez maiores polos globais de IA até 2032”. 

Impacto energético

A Prefeitura do Rio divulgou que a cidade reúne uma combinação de “disponibilidade energética, conectividade internacional, logística e ambiente urbano competitivo” para atrair esse tipo de investimento. “Com isso, o Rio de Janeiro vai se tornar o epicentro da conectividade, energia e logística estratégica do sul-global”, afirmou o prefeito Eduardo Cavaliere (PSD) na época.

O complexo tem previsão de gastar até 3 GW de energia em 2032. Sandra Quintela lembra que só o Grande Rio consome cerca de 1.8 GW. “Os data centers são consumidores vorazes de água e energia. Imagina o enclave com o consumo de energia, que é praticamente o dobro da Região Metropolitana”, pontua. 

Ela destaca como impacto direto o aumento das contas de luz para o consumidor individual. “Como a energia é disputada por esses enclaves tecnológicos, a tarifa aumenta. Então, quem vai pagar é o consumidor. Nos Estados Unidos, por exemplo, em muitos lugares aumentou 300% a tarifa do consumidor individual. Estamos vendo isso no México, no Chile, e está chegando com muita força ao Brasil”, alertou.

Além disso, Quintela ressalta o consumo de água necessário para resfriar a infraestrutura de geradores e processadores. “Mesmo em circuito fechado, a água fica aquecida, podendo chegar a 9ºC. Essa mudança de temperatura produzida por esses mega data centers atinge um raio de até 10 km”, finaliza.

Nesta terça-feira (25), a Rede de Vigilância Popular em Saneamento e Saúde e o Grito dos Excluídos promovem um evento para aprofundar o debate sobre o impacto dos data centers de inteligência artificial sobre os recursos energéticos. Participam da roda de conversa a economista Sandra Quintela, Maria das Graças (Ecopol/Nelutas/Unirio) e Fabrina Furtado (CPDA/UFRRJ), com mediação de João Roberto Lopes.

Serviço

Debate “Impactos dos Data Centers na Segurança Hídrica do Brasil”

Data: terça-feira (25)

Horário: 18h às 20h

Local: Auditório do Centro de Ciências Jurídicas e Políticas da Unirio (Rua Voluntários da Pátria, nº 107 – Botafogo)

Editado por: Vivian Virissimo