
Por Caio Aviz para Click Petróleo e Gás
Entre escolas sem climatização, perda de áreas verdes, impactos na saúde, dificuldades econômicas e um cotidiano cada vez mais desafiador, adolescentes da periferia e das ilhas de Belém explicam como o calor deixou de ser exceção e passou a moldar a vida na cidade que sediou o debate climático global
O calor chega cedo e, rapidamente, domina o dia. Logo pela manhã, o ar já fica pesado. Assim, descansar se torna difícil. Além disso, tarefas simples passam a exigir esforço físico e mental. Em Belém do Pará, capital que sediou a COP30, as mudanças no clima deixaram de ser distantes. Desde então, passaram a fazer parte da rotina urbana.
Em 2025, Belém liderou o ranking nacional de dias com extremos de calor. Ao todo, foram 212 dias com temperaturas máximas acima dos registros históricos. Esses dados foram analisados em 2026, a partir de séries meteorológicas oficiais. Portanto, o calor deixou de ser pontual e passou a ser recorrente.
A informação foi apresentada em reportagem exibida em rede nacional. A produção percorreu bairros periféricos e ilhas da capital. Dessa forma, ouviu jovens que convivem diariamente com calor intenso, infraestrutura limitada e poucas alternativas de adaptação.
Escolas sem climatização afetam diretamente o aprendizado
Antes de tudo, o impacto aparece na educação. João Vitor da Costa Silva, conhecido como João do Clima, tem 16 anos. Ele mora na Ilha de Caratateua. Ao longo de 15 anos, estudou em escola pública sem climatização. Como resultado, o calor excessivo compromete a concentração e o rendimento escolar.
Além disso, permanecer em sala de aula se torna desgastante. Do mesmo modo, o trajeto até a escola exige mais esforço. Assim, o calor interfere na rotina escolar durante praticamente todo o ano, especialmente até 2024. Consequentemente, o bem-estar físico e psicológico também é afetado.
Segundo os relatos, o problema vai além da sala de aula. O calor dificulta o sono. Além disso, reduz o descanso. Por isso, adolescentes convivem com cansaço constante. Isso afeta o desenvolvimento social e emocional.
Centro arborizado contrasta com periferia mais quente
Belém é conhecida como a “cidade das mangueiras”. De fato, avenidas arborizadas ajudam a amenizar o calor. No entanto, essa paisagem se concentra nas áreas centrais. Enquanto isso, nas periferias, a realidade é diferente.
Entre 1985 e 2023, cerca de 20% da cobertura florestal do município desapareceu. Esse dado vem de monitoramento ambiental oficial. Principalmente, a perda ocorreu com a expansão urbana para áreas periféricas. Assim, ruas foram abertas e asfaltadas após a retirada de árvores.
Como consequência, a diferença térmica se tornou evidente. Uma rua com árvores registra temperaturas menores. Por outro lado, vias sem vegetação ficam mais quentes. Portanto, o conforto térmico varia conforme o bairro.
Saúde, luto e maior exposição ao calor
Além disso, o calor também afeta a saúde. A mãe de João Vitor faleceu nos anos 2000. Ela foi vítima de câncer de pele. Durante anos, enfrentou exposição intensa ao sol no trajeto diário para o trabalho, sempre ao meio-dia.
Para o jovem, a doença está ligada a um contexto mais amplo. Esse cenário envolve menos áreas verdes e temperaturas mais altas. Soma-se a isso a dificuldade de acesso à prevenção. Assim, trabalhadores de baixa renda ficam mais expostos aos efeitos do calor prolongado.
O calor no bolso: impacto sobre o açaí
Além da saúde e da educação, o calor intenso atingiu a economia local. Em 2025, Belém enfrentou dificuldades no abastecimento de açaí. O alimento é central na dieta e na renda de milhares de famílias. Nesse período, o preço do litro atingiu valores recordes.
Segundo produtores, a redução da safra teve várias causas. Entre elas, estão a demanda internacional e as alterações no regime de chuvas. Além disso, o excesso de sol ressecou os frutos. Como resultado, a produtividade das palmeiras diminuiu.
Diante disso, muitas famílias passaram a comprar menos. Outras optaram por diluir o produto com água. Assim, o consumo foi mantido, mas com impacto direto na renda.
Chuvas concentradas ampliam os desafios urbanos
Os dados climáticos mostram outro padrão importante. Até 2024, o volume total de chuvas aumentou. Contudo, essas chuvas passaram a se concentrar em poucas horas e poucos dias. Dessa forma, não ajudam no equilíbrio térmico.
Além disso, esse padrão não favorece a agricultura. Pelo contrário, dificulta o ciclo produtivo do açaí. Assim, os efeitos do calor prolongado se intensificam no cotidiano urbano.
Jovens pedem participação nas decisões futuras
Por fim, adolescentes de bairros como Jurunas e das ilhas de Belém afirmam que já sentem os efeitos dessas transformações. Eles destacam que deveriam estar estudando e convivendo com outros jovens. No entanto, acabam assumindo responsabilidades cedo.
Dessa maneira, defendem que suas vozes sejam ouvidas. Para eles, o calor extremo mostra que todos enfrentam o mesmo fenômeno climático. Porém, as condições são diferentes. Enquanto alguns contam com infraestrutura, outros lidam diariamente com temperaturas mais altas, em um cenário que já redefine o presente e o futuro da capital paraense.









