Barragens começam a cair em ritmo histórico na Europa, rios são libertados após décadas de bloqueio, mais de 500 barreiras são removidas num único ano, quase 3.000 quilómetros voltam a fluir livres e um movimento ambiental ganha força para redesenhar o futuro da água no continente

Barragens sendo removidas na Europa revelam rios voltando a fluir livres após décadas de bloqueio, com estruturas em colapso controlado, leitos reconectados e paisagens naturais restauradas em diferentes países europeus.

Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges para Click Petróleo e Gás

Em 23 países europeus, barragens e barreiras obsoletas foram derrubadas em 2024, reconectando mais de 2.900 km de rios e abrindo passagem para peixes migratórios, sedimentos e cheias naturais, num movimento que promete redesenhar a gestão da água e ampliar a biodiversidade do continente.

Na Europa, a queda de barragens entrou em um novo patamar em 2024542 barreiras foram removidas em 23 países, um salto de 11% em relação ao ano anterior, que devolveu o fluxo livre a mais de 2.900 quilômetros de rios e reacendeu um movimento ambiental de escala continental. Barragens e represas antigas, muitas delas obsoletas, começaram a desaparecer do mapa em ritmo raro, abrindo espaço para a natureza retomar processos interrompidos por décadas.

O impulso de 2024 não ficou restrito a um único eixo geográfico. Países que nunca tinham removido estruturas passaram a entrar oficialmente no movimento, enquanto nações já engajadas alcançaram números inéditos em um ano. O resultado foi visível em diferentes paisagens europeias, com trechos de rios reconectados, rotas migratórias reabertas e áreas antes estagnadas voltando a funcionar como sistemas dinâmicos de água, sedimentos e vida.

Onde aconteceu: rios de 23 países da Europa e o avanço em 2024

O avanço ocorreu na Europa, em rios espalhados por 23 países europeus, que registraram remoções de barragens e outras barreiras ao longo de 2024.

O dado central do ano foi o volume: 542 estruturas removidas, reconectando mais de 2.900 km de cursos d’água.

O movimento também ganhou tração porque oito países a mais removeram barreiras em comparação com 2023, ampliando a presença territorial da iniciativa e consolidando a remoção de barragens como ferramenta prática de restauração de rios.

Por que derrubar barragens virou a forma mais rápida de devolver vida aos rios

A remoção de barragens e barreiras é tratada como uma das maneiras mais eficientes e econômicas de revitalizar rios porque destrava, de uma só vez, processos naturais que dependem de continuidade.

Quando um rio volta a fluir livremente, ele retoma dinâmicas essenciais, como variações de vazão, cheias naturais, transporte de sedimentos e circulação de nutrientes.

Rios saudáveis e conectados também oferecem uma “paisagem aquática” mais diversa, capaz de sustentar fauna e flora associadas à água doce.

Essa conectividade aumenta a capacidade de purificação natural da água e pode reduzir riscos de inundações a jusante durante períodos de chuvas fortes, além de tornar o sistema mais resiliente em cenários de mudanças climáticas.

O que as barragens fazem com a natureza: fragmentação, sedimentos travados e poluentes concentrados

Mesmo quando têm utilidade prática, barragens e represas alteram o funcionamento básico de um rio.

O impacto citado é amplo: perda e fragmentação de habitats, alteração da distribuição de sedimentos e nutrientes, interferência em cheias naturais e concentração de poluentes.

Na escala histórica, a transformação se acumulou. Desde o início do século XX, grande parte dos rios europeus foi poluída, canalizada e obstruída.

Algumas estruturas têm centenas de anos e continuam oferecendo benefícios como irrigação e energia, mas outras foram abandonadas e se tornaram obsoletas, mantendo um custo ecológico alto sem entregar a mesma utilidade.

O efeito que vai da nascente ao mar: peixes migratórios e ecossistemas costeiros

A restauração de rios não se limita ao trecho onde a estrutura cai.

Ao reconectar cursos d’água, rotas migratórias podem ser reabertas para peixes como salmão e esturjão, que precisam de acesso a áreas de desova rio acima e a águas costeiras saudáveis rio abaixo.

Quando peixes e outras espécies aquáticas voltam a circular, o impacto se espalha por ecossistemas inteiros, da nascente ao mar.

O fluxo natural melhora a saúde de estuários, pântanos salgados e zonas úmidas costeiras, ambientes ricos em biodiversidade que também funcionam como sumidouros de carbono, barreiras contra inundações e berçários para a vida marinha.

O recorde de 2024 em números: 542 barreiras, 11% de alta e mais de 2.900 km reconectados

O retrato de 2024 é marcado por um conjunto de números que explica por que o ano foi considerado recorde.

Foram 542 barreiras removidas em 23 países europeus, um crescimento de 11% em relação ao ano anterior. O efeito direto das remoções foi a reconexão de mais de 2.900 quilômetros de rios.

O avanço também apareceu na entrada de novos países na remoção oficial de estruturas. Bósnia e HerzegovinaCroáciaRepública Tcheca e Turquia removeram oficialmente suas primeiras barragens.

No grupo que liderou em volume, Finlândia apareceu como destaque, com 138 barreiras removidas em 2024. No mesmo ano, foi ressaltado que Finlândia e França removeram mais de 100 barragens cada.

Como a Europa está tentando redesenhar a relação com a água em tempos de extremos

Com o aumento de cheias e secas, o argumento central do movimento é que será necessário construir uma nova relação com a água, aceitando-a novamente nas paisagens e restaurando sua natureza selvagem sempre que possível.

Nesse conceito, remover barragens significa não apenas melhorar biodiversidade, mas também devolver ao rio a capacidade de se expandir, se ajustar e amortecer extremos.

Essa lógica explica por que o tema deixa de ser apenas conservação e entra no debate de resiliência climática, gestão de risco e reestruturação de paisagens inteiras.

A remoção cria condições para que processos naturais voltem a funcionar sem depender de intervenções constantes.

Apeninos Centrais, Itália: cinco barreiras removidas e 11 km do rio Giovenco livres de novo

Um dos exemplos destacados de remoção em 2024 ocorreu nos Apeninos Centrais, na Itália, onde a equipe de Rewilding Apennines supervisionou a remoção de cinco barreiras no rio Giovenco em novembro de 2024.

O resultado foi concreto: um trecho de 11 quilômetros do curso d’água passou a fluir livremente novamente pela primeira vez em muitas décadas.

A expectativa associada ao caso é de revitalização da paisagem e benefícios também para comunidades locais, já que a recuperação de rios tende a repercutir no entorno.

Delta do Oder, Polônia e Alemanha: duas barragens removidas e 20 km favorecendo reprodução de peixes

Outro caso citado em 2024 aconteceu no Delta do Oder, paisagem dividida entre Polônia e Alemanha.

Na parte polonesa, em junho e julho do ano passado, a equipe local e parceiros supervisionaram a remoção de duas barragens em cursos d’água da bacia do rio Ina.

O trabalho foi complementado por ações para recriar condições mais naturais no leito do rio.

A projeção é melhorar migração e reprodução de peixes ao longo de 20 quilômetros do rio, com benefícios associados também a comunidades locais, silvicultores e agricultores, que tendem a ganhar com águas mais saudáveis e com fluxo livre.

O que o movimento quer daqui para frente: escala continental e metas de rios livres até 2030

O salto de 2024 alimenta um objetivo ainda maior: ampliar o processo de restauração de rios por toda a Europa, com remoção de barreiras em escala.

Nesse horizonte, aparece a referência de restaurar pelo menos 25.000 quilômetros de rios europeus a um estado de fluxo livre até 2030.

A ideia é que a remoção de barragens se consolide como ferramenta central para alcançar essa dimensão, não apenas por ser uma ação direta, mas porque seus efeitos geram ganhos em cascata para biodiversidade, conectividade, resiliência climática e qualidade de água.

Por que 2024 virou um ponto de virada para barragens na Europa

O que torna 2024 um marco é a combinação de volume, abrangência territorial e aderência crescente de países.

Não foi apenas um aumento numérico, mas um sinal de que a remoção de barragens deixou de ser um esforço localizado para se tornar uma tendência europeia com resultados acumulados.

Ao mesmo tempo, o avanço reacende um debate inevitável: como equilibrar estruturas que ainda entregam benefícios como irrigação e energia com o custo ecológico que fragmenta rios e enfraquece ecossistemas.

A pressão por soluções mais inteligentes tende a crescer à medida que os extremos climáticos tornam a gestão da água mais urgente.

Na sua visão, derrubar barragens antigas na Europa é o caminho mais seguro para proteger rios e pessoas, ou existe o risco de remover rápido demais e criar novos problemas?