A crise climática não é só ambiental — é também de modelo econômico

Por Marcos Pedlowski para “A Nova Democracia”

Uma rápida olhada nos jornais internacionais e nacionais mostra que o início de 2026 está sendo marcado pelo aumento no número e na intensidade dos eventos meteorológicos extremos. O caso da Península Ibérica é um exemplo, pois a combinação de chuvas intensas está resultando no colapso de estruturas urbanas, com perdas econômicas significativas e de vidas humanas.

Embora esses eventos extremos não sejam novidade e estejam ocorrendo com maior frequência nos últimos anos, o que estamos assistindo não pode ser dissociado do agravamento da crise climática. A ultrapassagem do limite de 1,5 °C firmado no chamado Acordo de Paris já havia sido prevista como fator de agravamento da crise climática. O que foi e continua sendo subestimado é a necessidade de adaptação das estruturas urbanas ao colapso ambiental em curso. Continuamos vivendo como uma multidão de zumbis que se move em direção ao precipício, aparentemente embalada pelo que Karl Marx denominou de “fetiche da mercadoria”.

Um dos aspectos centrais do processo de alienação capitalista é justamente a humanização de objetos enquanto se desconsideram os efeitos da transformação de todas as coisas em mercadorias. Desprezar o valor de uso em nome do valor de troca é o que nos coloca nesse tipo de transe que leva à ignorância de problemas essenciais à nossa existência. O problema é que está ficando claro que estamos entrando em uma etapa de exaustão completa, não da Natureza propriamente dita, mas da nossa capacidade de sobreviver com o tipo de sociedade que o capitalismo estabelece.

De forma direta, o que estou dizendo é que estamos nos aproximando de um momento em que a sobrevivência da espécie humana depende da ruptura com o sistema de relações sociais que o capitalismo estabeleceu e disseminou em escala planetária. Esse sistema, cuja essência é gerar excesso de produção para atender, muitas vezes, a necessidades artificiais, acabou por criar a crise que agora requer uma resposta radical, sob pena de exaurirmos as chances de adaptação ao mundo que o capitalismo moldou.

A questão é que hoje inexiste um programa de superação do capitalismo, pois a totalidade das forças políticas eleitoralmente hegemônicas está comprometida com a manutenção do sistema. É preciso acrescentar que essa manutenção cobra custos cada vez mais altos dos sistemas naturais do planeta. Com isso, até elementos essenciais à sobrevivência humana passam por um profundo processo de mercantilização.

O maior exemplo da mercantilização da Natureza é algo que parece abundante, mas que está se tornando cada vez mais escasso: a água. O último relatório da ONU sobre a condição dos recursos hídricos em escala planetária descreve que vivemos um processo de falência causado pelo sobreuso e pelo desperdício das reservas existentes, que se tornam progressivamente mais escassas e de difícil acesso.

No caso brasileiro, além da distribuição espacialmente desigual das águas, o aumento do desmatamento na Amazônia e no Cerrado está criando uma situação de escassez em importantes bacias hidrográficas, que já se reflete na escassez hídrica na região metropolitana de São Paulo, reproduzindo situações graves que ameaçam a sobrevivência de cidades como Teerã e Cabul. A resposta do governo estadual de São Paulo, chefiado por Tarcísio de Freitas (PL), foi privatizar a Sabesp, estatal responsável pelos serviços de fornecimento de água e esgoto. Trata-se de um exemplo claro de mercantilização do essencial que favorece o lucro das corporações, enquanto a maioria da população padece com os efeitos da escassez.

Os eventos meteorológicos extremos citados no início acabam criando a sensação de que a escassez hídrica não é tão grave, já que frequentemente se assistem a cenas de cidades tomadas pelas águas das chuvas. Isso serve de argumento para os que negam a crise climática e a escassez hídrica. O problema é que essa água quase nunca cai onde deveria, combinando situações de inundação com escassez.

A combinação da crise climática com o aprofundamento da mercantilização da água tende a gerar situações cada vez mais perversas para os segmentos mais pobres da população. Reconhecer que esses processos se retroalimentam e impõem danos maiores justamente aos já prejudicados pelas formas de produção e reprodução social do capitalismo não é apenas necessário, mas inadiável. Insistir em soluções de mercado para enfrentar uma crise produzida pela lógica de mercado revela mais apego ideológico do que compromisso com a sobrevivência coletiva. Afinal, tentar resolver a crise climática com os mesmos mecanismos que a produzem é prolongar a doença em vez de enfrentá-la.