Por Arthur Soffiati

No século XVI, quando os portugueses ainda reconheciam o litoral do Brasil, os rios que irrigam o território do que seria futura e sucessivamente a Capitania de São Tomé, a Capitania de Paraíba do Sul e o Distrito de Campos dos Goitacazes dentro da Capitania do Rio de Janeiro eram mais conhecidos por sua foz. Imaginava-se como seria para o interior sem penetrá-lo. Pero de Gois, o primeiro donatário da Capitania de São Tomé, instalou-se na margem direita da foz do rio Managé, hoje Itabapoana. Em carta datada de 1545, ele relata a Martim Ferreira, seu destinatário, que havia explorado o rio Paraíba do Sul, então pouco conhecido e pouco registrado em mapas.

Foto Arthur Soffiati

Ao norte do Cabo de São Tomé, bastante conhecido dos navegantes por assinalar um perigoso baixio, desembocava o rio Iguaçu. Talvez pela estreiteza de sua foz, ele não fosse conhecido. Os goitacá certamente o conheciam e muito bem. Quando Gil de Gois, filho de Pero, devolveu a capitania de São Tomé à coroa Ibérica, o pequeno rio já devia ser conhecido também dos colonos portugueses, nascidos em Portugal ou no Brasil, pois a carta de Martim Correia de Sá, governador do Rio de Janeiro, doando sesmarias a sete homens ricos do Rio de Janeiro e Cabo Frio, estabelece seus limites entre os rios Macaé e Iguaçu.

A doação foi efetuada em 1627 e os homens ricos, os conhecidos Sete Capitães, promoveram sua primeira expedição às suas terras em 1632. Apesar de toda a discussão sobre a autenticidade do Roteiro que eles deixaram, não me resta dúvida de que a descrição do território em que ficavam suas propriedades é bastante fidedigno. Por outro lado, já discutimos à exaustão a autenticidade do documento, concluindo por sua fidelidade na descrição dos “acidentes geográficos”.

Arthur Soffiati

Aqui, fixamo-nos no rio Iguaçu, hoje esquecido pelos campistas e quissamaenses. Esse pequenino rio teve importante papel no processo de colonização contínua da planície goitacá por portugueses e seus descendentes brasileiros. O entendimento de território por europeus era e ainda é bem diferente daquele dos povos indígenas. Para os povos que já habitavam o que seria transformado em Brasil e em outros países das Américas do Sul e do Norte, território era uma entidade mágica e sagrada que deveria ser respeitada. Cito apenas o caso de Tatanka Yutanka (conhecido por Touro Sentado) ao entrar nas terras do seu povo. Ele tirava os sapatos e a roupa para não as contaminar. Para esses povos, não havia propriedade particular e coletiva da terra. Ela era um domínio comunitário que não podia ser vendido nem comprado. Para os europeus, a terra era objeto de presente, no período colonial, e de compra e venda a partir da lei de terras, de 1850.

Mesmo assim, os Sete Capitães não se limitaram a pensar nos lucros que poderiam auferir com suas terras no futuro Norte Fluminense. Em vários momentos, eles se encantam com a paisagem. Cansados de marchar sobre a areia da praia, eles desceram “das marinhas para a campina em razão dos areais; caminhamos beirando a campina da parte do noroeste; faziam lagos de água doce, e destas águas é formado o Rio Iguaçu. Ele tem seu nascimento na grande Lagoa Feia (…) traz sua corrente a leste, suas águas são encanadas por uma espécie de rio fazendo suas voltas, aonde traz sua corrente pela parte do sudoeste (…)segue até certa altura da campina, seguindo para leste para a parte da marinha. Naquele lugar finda o dito encanamento. Suas águas se espraiam pela dita campina, sempre a leste, não muito longe da marinha; deste lugar faz sua quebra a procurar o nordeste, isso até a barra do dito Iguaçu, ao norte do cabo de São Tomé”. A descrição é precisa ainda hoje. O capitão Miguel Vaz Riscado batizou a campina do cabo de São Tomé de campina da Boa Vista, nome conservado até hoje. O mesmo capitão Riscado deu o nome de Castanheta às terras em que nasce o rio Iguaçu. Aliás o extinto rio Castanheta era um dos formadores do rio Iguaçu.

Arthur Soffiati

Tive dificuldade em decifrar o rio Iguaçu. As obras de drenagem empreendidas pelo Departamento Nacional de Obras e Saneamento cortaram o rio com a abertura do canal das Flechas, entre 1942 e 1949, e dividiram o rio em três partes. Da nascente ao canal das Flechas, ele é conhecido como rio do Espinho, terminando numa bateria de comportas. O trecho médio sofreu impactos com a urbanização da praia do Farol de São Thomé. Ele ainda pode ser visto, mas sofreu aterros e está poluído. Inclui-se nesse trecho o Lagamar. O trecho final está protegido pelo Parque Estadual da Lagoa do Açu, incluindo o banhado da Boa Vista.

Já naveguei o primeiro trecho, entre as proximidades da nascente até as comportas. Conheço a segunda parte por terra. Naveguei também o trecho final do banhado à antiga foz, hoje fechada. O rio Iguaçu é encantador na sua primeira parte e na parte final, com um opulento manguezal. O trecho médio devia ser restaurado pela prefeitura de Campos porque, afinal de contas, o rio dos Sete Capitães, de Quissamã e de Campos é o rio Iguaçu.

*Professor, escritor, historiador, ambientalista e membro da Academia Campista de Letras