
Por Carla Teles
Estudo citado pela Reuters aponta que uma faixa do Pacífico minerada em 1979 ainda mostra sedimentos alterados e menos organismos grandes após quatro décadas. O alerta surge enquanto governos discutem regras internacionais e empresas miram cobre, cobalto e nódulos polimetálicos para baterias em águas profundas do oceano global, sem consenso regulatório.
A mineração no fundo do mar voltou ao centro do debate ambiental depois que cientistas identificaram marcas persistentes no leito do Pacífico mais de 40 anos após um teste de extração de metais. A área analisada fica na zona Clarion-Clipperton, região rica em nódulos polimetálicos.
A descoberta pesa porque empresas e governos discutem se a exploração comercial em águas profundas deve avançar antes de regras internacionais definitivas. Em jogo estão minerais como cobre, cobalto e níquel, usados em baterias, tecnologias de energia limpa e cadeias industriais estratégicas.
Mineração no fundo do mar deixou marcas por décadas

A área estudada foi impactada por um teste de mineração realizado em 1979. Mais de quatro décadas depois, uma expedição científica em 2023 encontrou sinais de que o ecossistema ainda não voltou completamente ao estado anterior.
O ponto mais sensível é a lentidão da recuperação. Em ambientes abissais, onde há pouca luz, baixa disponibilidade de alimento e organismos de crescimento lento, uma perturbação física pode permanecer visível por muitos anos.
Segundo o levantamento citado, a retirada de pequenos nódulos polimetálicos de uma faixa do leito marinho provocou mudanças duradouras nos sedimentos. Também houve redução de muitos organismos maiores que viviam na região.
Ao mesmo tempo, alguns seres menores e mais móveis mostraram sinais de recuperação. Isso indica que o impacto não é igual para todos os grupos, mas reforça a dificuldade de prever como um ecossistema profundo responde a uma atividade industrial.
Zona Clarion-Clipperton concentra minerais cobiçados

A zona Clarion-Clipperton, no Pacífico, é uma das áreas mais observadas por empresas interessadas em mineração oceânica. O local tem nódulos polimetálicos, formações minerais que se acumulam lentamente sobre o fundo do mar.
Esses nódulos podem conter metais como cobalto, cobre e níquel. São recursos estratégicos para baterias, carros elétricos, armazenamento de energia e outras tecnologias associadas à transição energética.
O problema é que esses mesmos nódulos também funcionam como parte do habitat de organismos do fundo do mar. Removê-los não significa apenas retirar minério, mas alterar fisicamente uma superfície onde a vida se organiza.
Esse é um dos principais pontos do debate. A mineração pode entregar metais importantes para a economia de baixo carbono, mas pode também criar danos em ecossistemas ainda pouco conhecidos pela ciência.
Estudo mostra recuperação desigual no fundo do Pacífico

Os dados indicam que os efeitos de testes antigos continuam detectáveis. A área minerada manteve alterações físicas no sedimento e mudanças na composição da fauna, especialmente entre organismos maiores.
Isso não significa que nada voltou ao local, mas que a recuperação é incompleta e desigual. Alguns grupos conseguiram recolonizar partes da área, enquanto outros seguem reduzidos ou ausentes em relação ao ambiente não impactado.
Em ecossistemas terrestres, a recuperação de uma área degradada já pode levar décadas. No fundo do oceano, a escala de tempo pode ser ainda maior, porque muitos processos são extremamente lentos.
Por isso, os cientistas tratam esses resultados como alerta. Testes pequenos, feitos em escala limitada, já deixaram sinais por mais de 40 anos. Uma operação comercial teria dimensão muito maior.
Debate internacional ainda não tem regra final
O alerta científico aparece enquanto delegações de dezenas de países discutem regras para eventual mineração em águas internacionais. A Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos, ligada ao sistema das Nações Unidas, tenta construir um código de mineração para orientar a atividade.
O impasse está no tempo. Empresas querem avançar, enquanto cientistas, ambientalistas e parte dos governos defendem cautela antes da liberação comercial.
Segundo a Reuters, 32 governos e 63 grandes empresas e instituições financeiras apoiavam algum tipo de pausa ou moratória. O argumento é que ainda faltam dados suficientes para medir riscos de longo prazo.
Do outro lado, empresas do setor afirmam que a mineração no fundo do mar poderia ter impacto menor do que a mineração terrestre convencional, porque seria necessário mover menos material para obter a mesma quantidade de metal.
Empresas miram primeira aplicação comercial

A canadense The Metals Company aparece entre os atores mais observados nesse processo. A empresa planejava submeter um primeiro pedido formal de mineração, mesmo com regras ainda em discussão.
Esse movimento aumenta a pressão sobre reguladores internacionais. Se uma aplicação for apresentada antes do código final, os países precisarão decidir como lidar com uma atividade que ainda não tem arcabouço completo.
A empresa sustenta que tem direito legal de apresentar o pedido e busca clareza no processo. Para defensores da mineração, os nódulos do fundo do mar podem ajudar a suprir metais necessários para a eletrificação global.
Para críticos, porém, avançar antes de entender plenamente os impactos pode repetir erros ambientais históricos. A diferença é que, no fundo do oceano, monitorar e reparar danos é muito mais difícil.
Ciência ainda conhece pouco das águas profundas

Uma revisão científica sobre os impactos da mineração em águas profundas aponta que planícies abissais, fontes hidrotermais e montes submarinos são ecossistemas muito diferentes. Cada um reage de forma própria à perturbação.
Nas planícies abissais, como a Clarion-Clipperton, há sinais de impactos ecológicos em escala de décadas. Em fontes hidrotermais e montes submarinos, o risco de perda de biodiversidade pode ser ainda mais crítico por causa do isolamento e do endemismo de espécies.
O problema central é que o oceano profundo ainda é pouco estudado. Muitas espécies não foram descritas, muitos habitats não foram amostrados e os processos de recuperação seguem incertos.
Isso cria uma dificuldade para decisões públicas. Autorizar mineração comercial sem conhecer totalmente o ambiente significa aceitar riscos que talvez só fiquem claros décadas depois.
Plumas de sedimento ampliam preocupação
Além da remoção direta dos nódulos ou crostas minerais, há outra preocupação: as plumas de sedimento. Máquinas no fundo do mar podem suspender partículas que se espalham e se depositam em áreas próximas.
Também existe debate sobre a descarga de água e material processado em camadas intermediárias do oceano. Esse tipo de pluma pode afetar não apenas o fundo, mas também ecossistemas da coluna d’água.
A revisão científica aponta que os efeitos dessas plumas ainda precisam de mais estudos empíricos. Modelos indicam possíveis áreas amplas de dispersão, mas faltam observações suficientes em operações reais.
Isso torna o risco mais complexo. A mineração não impactaria apenas o ponto exato onde a máquina passa, mas poderia alterar regiões ao redor e até organismos que vivem longe do fundo.
Baterias aumentam pressão por cobre e cobalto
A busca por metais para baterias é um dos motores da nova corrida pela mineração oceânica. Cobalto, cobre, níquel e outros minerais têm papel importante em tecnologias de armazenamento e eletrificação.
A contradição é evidente: a transição energética, pensada para reduzir emissões, pode gerar nova pressão sobre ecossistemas pouco conhecidos. O fundo do mar entra nesse debate como uma fronteira de mineração ainda não explorada comercialmente em larga escala.
A demanda por baterias tende a crescer com carros elétricos, redes de energia renovável e equipamentos eletrônicos. Isso aumenta o interesse por fontes alternativas de minerais.
Mas a pergunta que fica é se o benefício industrial compensa o risco ambiental. O estudo de longo prazo no Pacífico mostra que uma cicatriz pequena pode durar muito mais do que o ciclo econômico de uma empresa.
Alerta global cresce antes da corrida em águas profundas
A mineração no fundo do mar está sendo apresentada por alguns como solução para a demanda por metais. Mas os dados científicos mostram que o oceano profundo não é um espaço vazio, simples ou rapidamente recuperável.
O teste de 1979 no Pacífico deixou sinais por mais de 40 anos. Esse dado muda a escala da discussão, porque mostra que os impactos podem atravessar gerações humanas.
A decisão sobre liberar ou não a exploração comercial envolve ciência, economia, clima, geopolítica e biodiversidade. Não se trata apenas de escolher onde extrair metais, mas de definir quanto risco o mundo aceita impor a um ambiente que ainda mal conhece.
E você, acha que a mineração no fundo do mar deve ser pausada até a ciência entender melhor os impactos, ou os metais para baterias justificam avançar com regras rígidas de controle? Comente sua opinião.









