“Falência hídrica”: Relatório da ONU aponta colapso global da água doce

Imagem ilustrativa. Foto: Lalo de Almeida/Folhapress

Especialistas das Nações Unidas afirmaram nesta terça-feira (20) que o mundo entrou em uma nova era de “falência hídrica”, após impactos combinados das mudanças climáticas, da poluição e de décadas de uso excessivo da água. A avaliação consta em relatório da Universidade das Nações Unidas, braço de pesquisa da ONU, que analisa a situação global das fontes de água doce.

O estudo compara a situação atual a um desequilíbrio financeiro. Segundo os pesquisadores, a humanidade consome mais do que a “renda” anual de água —proveniente de chuvas e neves— e também esgotou reservas de longo prazo armazenadas em aquíferos subterrâneos, geleiras e ecossistemas naturais. Ao mesmo tempo, parte da água disponível é contaminada por resíduos urbanos, agrícolas e industriais.

Entre os dados apresentados, o relatório aponta que mais da metade dos grandes lagos do planeta está em retração e que cerca de 70% dos aquíferos subterrâneos registram declínio de longo prazo. O documento também cita o aumento da frequência de secas em larga escala, com custo médio anual estimado em US$ 307 bilhões, além de indicar que aproximadamente 4,4 bilhões de pessoas enfrentam escassez de água ao menos um mês por ano.

Assembleia Geral da ONU, em Nova York. Foto: Loey Felipe

O autor principal do relatório, Kaveh Madani, diretor do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da ONU, afirmou que expressões como “crise hídrica” não descrevem adequadamente o cenário atual. Para ele, o quadro não representa um episódio passageiro, mas uma condição permanente que exige mudança na forma como governos e sociedades lidam com a água.

Segundo o relatório, atividades humanas já causaram danos irreversíveis a sistemas responsáveis por gerar, regular e armazenar água doce. O aumento das temperaturas alterou padrões de precipitação e acelerou a evaporação, enquanto o desmatamento e a expansão urbana comprometeram ecossistemas que filtram e mantêm a qualidade da água. A extração excessiva também reduziu a capacidade de recarga de aquíferos.

Diante desse cenário, o estudo defende que líderes globais reconheçam formalmente uma “falência hídrica global” e passem a reorganizar políticas públicas a partir de um volume menor de água disponível. O texto cita a necessidade de proteger ecossistemas, revisar modelos agrícolas —responsáveis por cerca de 70% do uso de água no mundo— e redefinir prioridades para evitar agravamento da escassez, impactos econômicos e disputas associadas ao acesso à água.