Quando chove bastante no norte fluminense, sem que as chuvas provoquem transbordamento, os rios e lagoas conservam água doce, num movimento de recuperar os volumes e as vazões perdidas pela intensa drenagem efetuada por particulares e por órgãos públicos, notadamente pelo extinto Departamento Nacional de Obras e Saneamento, entre 1940 e 1990.
Um sistema hídrico complexo por fluir sobre formações geológicas de diferentes idades, merece atenção especial em termos de proteção. Ele é formado pelos rios Imbé e Urubu. O Imbé recebe água dos pequenos rios que descem da Serra do Mar (conhecida como Imbé na região). Ambos desembocam na lagoa de Cima.
Quando cheia sem transbordamento ela não só apresenta lindo panorama visual, com rico potencial turístico, mas também como grande reservatório de água doce, cada vez mais escassa no norte/noroeste fluminense por conta do desmatamento e da drenagem excessiva. Trata-se de patrimônio a ser preservado pelos governos federal, estadual e municipal, assim como pela população de Campos, tendo em vista que ela foi visitada por D. Pedro II e por Paul Claudel, além de alguns naturalistas. Todos admirando seus encantos e comparando-a com lagos suíços.
Junto ao morro do Itaoca, corre o rio Ururaí, que nasce na lagoa de Cima e desemboca na lagoa Feia. Trata-se de uma formação geológica mais antiga que a Serra do Mar. Do alto do morro, com 400 metros de altitude, pode-se ver o rio e as lagoas que ele forma em seu sinuoso curso entre a lagoa de Cima e a BR-101. Esse trecho não foi canalizado pelo Departamento Nacional de Obras e Saneamento.
Descendo até as margens do rio Ururaí, cujo maior transbordamento registrado ocorreu no final de 2008 e início de 2009, verifica-se que ele está bastante ameaçado no trecho que se estende da BR-101 à lagoa Feia. Além de ter sido canalizado pelo DNOS, o despejo de esgoto da cidade de Campos e do bairro de Ururaí compromete suas águas. A exploração do solo pela agropecuária também o ameaça.
Por fim, a enorme lagoa Feia, o maior reservatório de água doce do estado do Rio de Janeiro, vista por ângulo pouco conhecido, mostra toda sua exuberância. Antigas lagoas, que os proprietários rurais insistem em sustentar que nunca existiram, que são invenção de ambientalistas e que a população nada sabe sobre elas, renascem com as chuvas mais intensas.
Visitando a lagoa Feia pelo sul, sente-se a emoção que talvez tenham sentido os Sete Capitães, em 1632, ao divisar aquele mundo de água doce que parece um mar interior. Existem ainda vestígios do canal de Jagoroaba ou Ubatuba, primeira tentativa de ligar a lagoa Feia ao mar, aberto em 1898 pelo engenheiro Marcelino Ramos da Silva. Ele fez um mapa da lagoa Feia dando-lhe a dimensão de 370 km². No momento presente, sua dimensão é calculada em torno de 170 km².
É hora de se pensar na criação de reservatórios de água doce nas baixada dos Goitacazes e de Jurubatiba. Deve-se evitar que esses reservatórios sejam criados nos leitos de rios, através de barragens, para não alterar sua vazão. Em vez de esperarmos que Minas Gerais construa uma barragem no rio Paraibuna para atender as necessidades hídricas do norte fluminense, deve-se considerar que esses reservatórios já existem nas lagoas do norte fluminense, sobretudo no sistema lagoa Feia e no seu entrono. Com as obras de drenagem efetuadas pelo DNOS, muitas lagoas foram totalmente dessecadas. As que restaram deveriam ser protegidas para fins de abastecimento público, de fixar umidade do solo e mesmo beneficiar a agropecuária.
A criação de um Sítio Ramsar no sistema hídrico formado pelos rios Imbé, Urubu, Ururaí, Macabu, da Flecha e pelas lagoas de Cima, Feia e da Ribeira, pelo menos, deve ser colocada na pauta do Comitê de Bacias IX, do Inea e do Ibama.
Todas as fotos foram tomadas pelo autor do texto