Bases naturais
Antes que povos do norte da Ásia entrassem na América, o último continente a ser povoado por humanos, o rio Muriaé já corria em meio à Mata Atlântica. Não havia ainda nenhuma pessoa em suas margens. Então, como ter certeza de que ele e seus afluentes eram cercados de florestas? O capitão cartógrafo Manoel Martins do Couto Reis, em 1785, informa que a vila de Campos era cercada pelos sertões de Macabu, do Imbé, do Paraíba, do Muriaé e da Flecheira. Continuando, ele escreve que todos esses sertões eram cobertos por florestas e habitados por índios ferozes. Ele descreveu Guarus como uma área coberta por florestas e, subindo o rio Paraíba do Sul até a foz do rio Pomba, confirmou a cobertura florestal de toda a região serrana.
Ao subir o rio Paraíba do Sul até São Fidélis, em 1815, o naturalista alemão Maximiliano de Wied-Neuwied encontrou florestas densas que ele chamou de românticas. Ao passar por Macaé, em 1818, o botânico francês Auguste de Saint-Hilaire alertou que o desmatamento podia acarretar problemas futuros para a economia. Na década de 1850, o naturalista alemão Hermann Burmeister dirigiu-se a Minas Gerais seguindo o rio Pomba e se emocionou com a pujança das florestas. Já em território da Província de Minas Gerais ele se deparou com desmatamentos. Em 1875, o naturalista brasileiro Manoel Basílio Furtado empreendeu uma excursão às bacias do Itabapoana e do Itapemirim. Ao mesmo tempo em que se encantou com as florestas, ele acusou o desmatamento em marcha.
Atrás dos pioneiros, seguiram grandes e pequenos agricultores e criadores. As florestas representavam um obstáculo aos seus interesses. Derrubar matas era sinônimo de civilizar o território nos séculos XVI, XVII, XVIII, XIX e ainda no século XX. Assim, não era crime desmatar. O Poder Público apoiava a substituição das florestas por agricultura, pastoreio e núcleos urbanos. Se não bastassem o testemunho dos naturalistas que mencionamos, os fragmentos florestais que restaram no Noroeste Fluminense caracterizam muito bem que ali existia a Mata Atlântica nas suas feições ombrófila (úmida) e decidual (seca). José Pedro Carauta e Elizabeth Rocha, num pequeno estudo, mostram que a vegetação nativa das margens direita e esquerda do rio Paraíba do Sul são diferentes. Na direita, predominam as florestas ombrófilas densas, aquelas que conservam a umidade durante todo o ano. Na margem esquerda, em face de umidade mais reduzida, as florestas são caducifólias, ou seja, perdem parte de suas folhas na estação seca. Não só naturalistas dão testemunho da paisagem, como esta própria, a paisagem, fala. Basta saber ouvi-la.
O rio Muriaé nasce na Serra do Brigadeiro a 900 metros de altitude e percorre 250 km até desembocar no rio Paraíba do Sul em seu trecho final. Trata-se de um rio médio, se comparado aos grandes rios da América do Sul, mas grande ou médio em relação aos rios da Europa Ocidental. Seus principais afluentes são os rios Glória, Carangola, Gavião e Preto. Pela altitude da nascente e pela extensão de seu curso, conclui-se que o rio não conta com declives acentuados. Pode-se até considerá-lo um rio antigo pelo desgaste do seu leito. Alberto Ribeiro Lamego entendeu que, antes da formação da planície fluviomarinha do rio Paraíba do Sul, este era afluente do Muriaé. Futuramente, o Muriaé passaria a ser afluente do Paraíba do Sul. Hoje, estudos de recentes de geologia mostram que a planície formada pelo Paraíba do Sul em seu trecho final tem menos de 5.100 anos, idade muito recente em termos geológicos.
Povos nativos
Toda a bacia hídrica que tem o Muriaé como centro era habitada, antes da chegada dos europeus, por povos do grupo linguístico macro-jê, como ensinam Freire e Malheiros. O mais conhecido são os puris. Os dois autores afirmam que os maxakalis habitavam o vale do rio Carangola. A economia desses povos era completamente distinta da europeia. O ambiente era tão rico em recursos que eles viviam mais da coleta que da produção. As plantas nativas, a pesca e a caça forneciam-lhes o sustento. Daí a se concluir que eles tinham uma economia característica do nomadismo, mas com uma vida sedentária ou semissedentária em razão da abundância na relação recursos-demanda. A propriedade privada dos meios de produção era-lhes desconhecida.
A ocidentalização do rio Muriaé
Entendo pelo conceito de ocidentalização transformar um território, os rios, as plantas, os animais em termos ocidentais. Trata-se de moldar o mundo à imagem e semelhança do ocidente. Tomemos os rios como exemplo. Em toda sociedade humana, em diferentes graus de desenvolvimento, os rios eram usados para a navegação por embarcações de diversos tipos, inclusive simples toras, e por pontes. Pequenas áreas úmidas eram drenadas. Terras secas eram irrigadas em pequena escala. Águas de cheia eram represadas quando da vazante. Tais procedimentos ocorriam em todas as culturas antes do ocidente: na China, na Mesopotâmia, no Egito Antigo, na América em geral, na ilha de Marajó em particular.
No ocidente, a partir do século XI, com o nascimento da economia de mercado, os rios começam a ser vistos como objeto de dominação e de domesticação. Além de embarcações, pontes, pequenos diques, pequenas represas, os rios passaram a ser moldados para atender as demandas da economia. O avanço ocorreu no século XX, com desmatamento raso de margens, barragens para fins diversos, transposições, megapontes, drenagem, canalizações, desvios, despejos de esgoto e outras modificações mais.
Essa concepção fica patente nas comparações feitas por naturalistas entre os rios da Europa e da América. No trecho final do rio Paraíba do Sul, Maximiliano de Wied-Neuwied, Auguste de Saint-Hilaire e Hermman Burmeister compararam-no ao rio Reno, afirmando que o Paraíba do Sul era mais belo que o Reno por suas ilhas, águas e vegetação. O Reno já era usado pela economia de mercado havia muitos séculos. Hoje, a bacia do Reno foi domesticada, despoluída e posta a serviço da economia. O rio Paraíba do Sul também, mas não com os cuidados dispensados a vários rios europeus.
O rio Muriaé também foi ocidentalizado como os rios Itapemirim, Itabapoana, Guaxindiba, Paraíba do Sul, Pomba, Grande, Ururaí e Macaé, para apenas mencionar os rios do Norte-Noroeste Fluminense.
Colonização europeia da região e dos rios
A colonização europeia contínua regional começou na terceira década do século XVII. Em pouco tempo, o núcleo urbano que daria origem a Campos estava formado. Apenas do lado direito de quem se posta de frente para a parte serrana, não existiam florestas luxuriantes. Tratava-se do sertão das Cacimbas. No século XVIII, os europeus e seus descendentes já haviam conquistado o baixo curso do Muriaé, como registra Couto Reis:
(…) tem avultado curso e belíssima navegação até o primeiro Cachoeiro, e ainda passado este, mais acima um bom espaço, depois do que são repetidas as itaupevas que dificultam a passagem: é geralmente enfadonho por suas grandes voltas. Tem seu nascimento contíguo aos dos rios da Pomba e Cabapuana e na mesma serra: corre com inclinação sueste com 20 ou mais léguas de extensão no seu total comprimento até fazer barra pouco distante da vila de S. Salvador. São as suas margens abundantíssimas de varjarias excelentes em terreno alto, porém, ainda assim com extensíssimas baixadas, de onde se geram longos brejais que se comunicam com outros igualmente dilatados, que partem os Sertões das Cacimbas, e por vários córregos se esgotam, uns no Paraíba e outros no Cabapuna (Itabapoana). Abunda também de estimáveis madeiras e do socorro da sua navegação se colhe a facilidade da sua condução. A sua parte oriental até perto do primeiro cachoeiro está muito bem povoada de engenhos. Na ocidental, há menos cultura, porque fica grande espaço dela pertencendo aos travessões ou fundos das possessões dos moradores do Paraíba.
A caracterização do curso final do Muriaé é bastante precisa: desnível, meandros, terrenos elevados, várzeas. Sugere a conclusão de que já era conhecido depois da última queda d´água. Mostra que o trecho final, na margem esquerda, já era ocupado por engenhos. Havia madeiras da melhor qualidade.
A próxima descrição do curso final do Muriaé coube ao naturalista sergipano amador Antonio Muniz de Souza. Em 1827, ele subiu o rio Muriaé poucos quilômetros acima da foz e registrou suas observações sobre navegabilidade durante as cheias e por canoas no estio até a primeira cachoeira (na verdade a última), distante cerca de seis a sete léguas de Campos. Notou atentamente a configuração do seu leito maior, com brejos permanentes e extensas várzeas inundáveis no tempo das águas, excelentes para pastagens nas estiagens, mas impróprias para a lavoura. Registrou seus afluentes, sobretudo o córrego Carqueja, “de abundantes e permanentes águas”, das ilhas, das imponentes matas, dos peixes, dos animais terrestres, das aldeias puris e das atividades econômicas que galgavam suas margens progressivamente em direção à Província de Minas Gerais. Ele propôs medidas para estender a navegação acima da última queda d’água.
Manoel Aires de Casal endossa os dois autores citados:
Suas águas, quando se começaram a cultivar as suas fertilíssimas adjacências, hoje povoadas de engenhos de açúcar, eram tão pestilentas, que quantos as bebiam, padeciam febres malignas, que ou lhe acabavam os dias, ou os deixavam pálidos e esverdeados por toda a vida. Os mesmos mantimentos produzidos nas terras inundadas pelas suas cheias eram pestíferos. O seu maior confluente é o denominado rio Morto por ser de corrente tranquila: suas águas são escuras, desde sua origem, que está nuns pantanais. Nas suas margens cria-se um cipó venenoso, chamado timbó ou tingui, e uma árvore denominada guaratimbó (cuja raiz não é menos nociva), aos quais se atribui a malignidade de suas águas.
Por seu turno, Pizarro e Araujo escreve que suas águas eram doentias quando suas margens eram cobertas de florestas; no entanto, abatidas e ocupado o terreno por 28 engenhos, não provocavam mais moléstias. Quanto ao rio morto, originado em brejos muito extensos, apresentava ele águas turvas até as cercanias do Muriaé e havia em suas margens um cipó denominado timbó ou tingui e uma árvore chamada guaratimbó cujas raízes, juntamente com o cipó, são venenosos, uma vez que, batidos na água, matam todo peixe existente até que seu efeito se dissipe pela correnteza do rios. Tão forte é sua ação que contamina as terras atingidas pelas águas e os produtos que nelas se cultivavam. Pizarro e Araujo plagiava muito, o que não era crime em seu tempo.
Todos os autores defendem ação civilizatória do ambiente em moldes ocidentais para o rio Muriaé. As árvores devem ser derrubadas, as margens devem ser ocupadas por agricultura e engenhos. Apesar dos perigos de doenças, vale a pena moldar o rio Muriaé em termos europeus. Malgrado seus meandros, o rio oferece perspectivas de ser navegável até o último desnível e acima dele. O trecho superior do rio começava a ser conhecido. A ocidentalização era defendida para todos os territórios fora da Europa. Já na segunda metade do século XIX, não apenas o Muriaé, mas o Carangola, seu afluente mais importante, estava ocupado por fazendas. Em 1863, o francês Milliet de Saint-Adolphe resume o conhecimento obtido sobre o Muriaé na primeira metade do século XIX:
Rio da província do Rio de Janeiro, no norte do distrito da cidade de Campos. Vem da serra do Pico e ajunta-se com o Paraíba pela margem esquerda, depois de haver recolhido as águas cenosas do ribeiro Morto. Sobem por este rio acima as canoas até os montes onde antigamente residiam os índios Guarulhos. Há em suas margens obra de 30 fábricas de açúcar e nelas vegetam o timbó ou tingui e a árvore chamada guaratinbó (…). As águas do Muriaé devem ser perniciosas, e talvez o deixassem de ser se extirpassem estas plantas venenosas, arroteando as terras e campos adjacentes.
No final do século XIX, Teixeira de Melo registra que o rio atravessa S. Paulo do Muriaé, Vargem Grande e Laje, entrando na freguesia de Natividade e recebendo como afluente o córrego de Carqueja e o rio Morto. Ele arremata: “Antigamente, antes das grandes derrubadas para o estabelecimento de fazendas de açúcar, eram as águas do Muriaé prejudiciais à saúde, pela imensa quantidade de timbó e guaratimbó que lhe infestavam as margens e envenenavam a água e de que hoje nem há notícia”. A ocidentalização da bacia do Muriaé estava concluída: as florestas foram derrubadas, as águas impuras (se é que existiram) foram saneadas, os engenhos ocuparam suas margens, a cana, o café, outras culturas e o gado passaram a ser criados em seus campos antes não cultivados ao longo de toda a bacia.
Mas o mesmo autor, num passeio de canoa pelo rio, foi tomado de emoção pelos encantos que o rio ainda guardava de um passado “bárbaro”.
Uma vez, descia eu de madrugada, em canoa, pelo Muriaé, com minha família. Ao passarmos pela fazenda da viscondessa de Muriaé, eu, que adormecera à toada monótona dos remos na canoa, desperto de repente e assisto a um espetáculo original e único de que fora testemunha em minha vida: na baixada cortada pelo rio, em uma e outra margem, creio que todas as aves canoras da região se haviam congregado para comemorarem talvez alguma data gloriosa ou triste entre elas, por um concerto vocal matutino, a que a tecnologia estrangeira denomina matinée musicale, era admirável a harmonia daquele conjunto de mil vozes, regidas por batuta invisível, tão maravilhosamente se combinavam os cantos em uma ópera fantástica que nenhum Mayerbeer, nenhum Carlos Gomes, nenhum Wagner comporá jamais. Como que todas as aves canoras da região estavam ali representadas no que tinham de mais melodioso. Foi um espetáculo sublime que na ocasião nos pareceu sobrenatural, desvanecendo-se rápido como um sonho, mas deixou-me a mais grata e duradoura impressão.
Extrativismo e atividades rurais
A alta bacia do Muriaé começou a ser ocidentalizada no início do século XIX. Partindo de Campos e da Zona da Mata de Minas Gerais, exploradores de minérios, agricultores e comerciantes usaram os rios Itapemirim, Itabapoana, Paraíba do Sul, Muriaé e Pomba para colonizar a região atualmente denominada Noroeste Fluminense. O nome mais conhecido entre esses desbravadores é o de José Lannes Dantas Brandão, cuja trajetória ilustra bem o perfil dos pioneiros na conquista e ocidentalização de um território extra-europeu.
Lannes nasceu no arraial de São João Batista do Presídio, Zona da Mata de Minas Gerais. Serviu nas milícias de D. João e, por desentendimento com um colega, desertou. Fugiu para o vale do Paraíba do Sul. Subiu o rio Muriaé. Conseguiu aliciar indígenas puris, formando com eles uma escolta. Alcançou o rio Carangola até a cachoeira de Tombos. Entre os anos de 1821 e 1831, lançou as bases de Porciúncula, Natividade e Itaperuna. Empenhou-se em “civilizar” a região com a derrubada de florestas e o plantio de café. Doou terras a parentes e amigos. Contava com muitos escravos. Parece que era odiado por eles. Pelo empenho em levar a “civilização” a plagas distantes, recebeu o título de Guarda-Mor do Presidente da Província de Minas Gerais.
Aos poucos, a área pioneira que se tornaria o Noroeste Fluminense na década de 1970 atraiu colonos açorianos, italianos, libaneses e até mesmo alguns chineses, que ocuparam o lugar de escravos negros com a Abolição da Escravatura em 1888. O francês Alexandre Bréthel veio trabalhar numa fazenda no vale do Carangola por dois anos e nunca mais retornou ao seu país. Ele manteve uma contínua correspondência com seu tio, falando sobre desmatamento, chuvas, intensificação da escravidão negra e afastamento dos indígenas.
Como se sabe, o desmatamento está associado ao processo de erosão. O solo fica desprotegido e sujeito a chuvas, que transportam sedimentos para os rios, gerando turbidez no primeiro momento. Assentados no fundo dos leitos, os sedimentos geram assoreamento. A agricultura e a pecuária, que se instalaram no Noroeste Fluminense, também acentuam a erosão, além de inibirem a regeneração espontânea da floresta.
Urbanização
Atrás de uma economia extrativista, agrícola e pecuarista, vem o processo de urbanização. A colonização dessa região começou entre o fim da Capitania do Rio de Janeiro e o princípio da Província do Rio de Janeiro. O processo de urbanização seguia as etapas trazidas de Portugal: curato, freguesia, vila e cidade. Essa hierarquia foi seguida em vários casos do Noroeste Fluminense. A maior parte dos núcleos urbanos ergueu-se junto aos rios da bacia do Muriaé. Atualmente, às margens do Muriaé, situam-se as cidades de Miraí, Muriaé e Patrocínio do Muriaé (no estado de Minas Gerais); Lage do Muriaé, Itaperuna, Italva, Cardoso Moreira e Campos dos Goytacazes (no estado do Rio de Janeiro).
O rio Carangola, seu maior afluente, também foi urbanizado. Em Minas Gerais, ergueram-se as cidades de Orizânia, Divino, Carangola, Faria Lemos e Tombos. No Rio de Janeiro, formaram-se as cidades de Porciúncula, Natividade e Itaperuna.
Todas têm sua história nem sempre bem contadas. Em 2025, uma dissertação de mestrado abordou a questão das enchentes na cidade de Carangola. A bem dizer, o que acontece em Carangola é muito semelhante ao que acontece em outros rios serranos da região: a cidade avança sobre o leito do rio e as enchentes avançam sobre as cidades. Comparando a serra da margem esquerda do rio Paraíba do Sul com a serra da margem direita do mesmo rio, observa-se que o deslocamento das águas fluviais é diferente. Talvez com um deslocamento mais lento na margem esquerda pela baixa declividade do relevo. O Noroeste Fluminense é um rico campo de pesquisa para a história, particularmente para a história ambiental.
O crescimento desordenado desses núcleos urbanos, a partir da segunda metade do século XX, levou à ocupação de trechos integrantes do leito dos rios. Seja ocupação por pessoas pobres, empurradas para áreas de risco, seja mesmo por pessoas de posses que se apropriam do leito. As áreas de risco são criações da sociedade. Em Itaperuna, por exemplo, as enchentes provocam transbordamentos e alagam as ruas. Tais enchentes tornam-se cada vez mais problemáticas como consequência das mudanças climáticas. Ao longo do ano, predominam as secas. O nível das águas torna-se delgado, permitindo visualizar lixo em seu leito. As chuvas torrenciais provocam enchentes destruidoras de curta duração.
Além de resíduos sólidos lançados no rio, existem pontos de lançamento de esgoto, causando poluição.
Barragens
Barragens em rios são comuns desde tempos remotos. Até mesmo o povo que habitou a ilha de Marajó e que criou a bela cerâmica marajoara fazia pequenas represas para conservar água de cheias e criar peixes. Grandes barragens para regular o regime hídrico de um rio ou para gerar energia elétrica é prática do ocidente.
Na bacia do Muriaé, foram construídas barragens para geração de energia elétrica. A maior é a da Usina Hidrelétrica de Miguel Pereira, no município de Miraí. Existem também as pequenas barragens de PCHs (Pequenas Centrais Hidrelétricas) de Comendador Venâncio e de Glória. A de Miguel Pereira corre a fio d`água, com uma queda de 25 metros. Entrou em operação em 1930. No rio Carangola, a principal hidrelétrica é a Usina de Tombos, aproveitando uma cachoeira do rio. Ela tem cerca de 62 metros de altura.
Além dessas barragens, existem aquelas construídas por proprietários rurais com o fim de reservação de água. Sabe-se que barragens grandes e pequenas transversais aos leitos impedem ou dificultam a circulação de peixes tanto para acasalamento quanto para alimentação, afetando a atividade pesqueira. Sabe-se que as barragens a fio d`água não vertem água o tempo todo pelo topo da barragem. Assim, elas afetam o regime hídrico e provocam desequilíbrio ambiental. Na bacia do Paraíba do Sul, quase todos os rios tiveram seus cursos interrompidos por barragens.
O rio Paraíba do Sul conta com a transposição de Santa Cecília, que desvia dois terços de sua vazão para o rio Guandu com o fim de abastecer cerca de nove milhões de pessoas da grande cidade do Rio de Janeiro. Que se saiba, seus afluentes não sofreram com transposições.
Mineração
Existem muitas barragens de rejeitos de minérios na bacia do Paraíba do Sul. Já houve rompimento delas no próprio Paraíba do Sul e nos afluentes Paraibuna, Pomba e Muriaé. Neste último, a Mineradora Rio Pomba Cataguases (hoje Bauminas), em Miraí, no ano de 2006, foi responsável pelo vazamento de cerca de 400 milhões de litros de lama de argila misturada com óxido de ferro e sulfato de alumínio. Essa lama era rejeito do beneficiamento de bauxita. O vazamento lançou lama no riacho Fubá, que deságua no Muriaé. Cerca de 100 mil pessoas ao longo do Muriaé foram atingidas por esses rejeitos. O abastecimento público de água foi interrompido. Ocorreram a morte de muitos peixes e muitos prejuízos à agropecuária. A mesma empresa causou novo acidente em janeiro de 2007, em virtude das fortes chuvas. A barragem foi novamente rompida. Como o rio principal e seus afluentes, o Muriaé ocidentalizou-se quase completamente.
Mudanças climáticas
O perfil longitudinal do relevo do Norte-Noroeste mostra a serra como o ponto mais elevado. Na margem direita do Rio Paraíba do Sul, encontra-se a Serra do Mar, com as mais expressivas latitudes. Na margem esquerda do mesmo rio, a zona serrana, já muito desgastada, apresenta altitudes mais modestas. Já nas imediações da foz dos rios Muriaé, Itabapoana e Itapemirim, o relevo é constituído por tabuleiros (Formação Barreiras), com idade estimada em cinco milhões de anos. Logo a seguir, a planície fluviomarinha formada pelo trabalho conjunto do rio Paraíba do Sul e do mar, com exceção da restinga de Jurubatiba, entre o canal da Flecha e o rio Macaé. Arrematando toda essa costa peculiar pela ausência de formações pedregosas, estende-se o mar.
Na zona serrana da margem direita do rio Paraíba do Sul, a cobertura vegetal nativa é constituída pela Mata Atlântica Ombrófila Densa, complexa e úmida o ano inteiro. Ela ainda conta com extensões expressivas, como a protegida pelo Parque Estadual do Desengano. Na zona serrana da margem esquerda do mesmo rio, a menor umidade levou a Mata Atlântica a se adaptar na forma estacional decidual e semidecidual. Estacional por sofrer influência das estações do ano. A decidual perde até 80% das folhas na estação seca. A semidecidual perde de 20 a 50% das folhas na estação seca.
A floresta estacional se estendia pelos tabuleiros e chegava no limite da planície. Nesta, a parte influenciada por água doce permitiu o desenvolvimento de vegetação pioneira de influência fluvial. Trata-se de vegetação de porte limitado pelo excesso de água doce. Observar que a planície fluvial do Norte Fluminense era coberta de lagoas, acumulando muita água doce. Já na planície de restinga, a vegetação é classificada como de influência marinha. Sua zonação começa com uma faixa baixa de vegetação sucedida por uma faixa arbustiva com uma faixa arbórea no interior. Na foz dos rios que desembocam no mar, formam-se estuários, que permitem o desenvolvimento de manguezais.
Por fim, o mar. Todas essas formações vegetais nativas foram total ou parcialmente suprimidas pela colonização europeia. Na zona serrana da margem esquerda do rio Paraíba do Sul, a Mata Atlântica Estacional ficou reduzida a tufos vestigiais, assim como nos tabuleiros. Na planície aluvial, a grande drenagem efetuada pelo Departamento Nacional de Obras e Saneamento reduziu drasticamente a umidade do solo, assim como na restinga. No mar, instalou-se a exploração de petróleo e gás a partir da década de 1970.
O desmatamento, a drenagem de lagoas e a produção de petróleo e gás contribuem direta ou indiretamente para o lançamento na atmosfera de gases causadores do efeito-estufa. Até o momento, não foi feito um estudo para mensurar a contribuição do desmatamento nas regiões Noroeste Fluminense, da drenagem na planície fluviomarinha e da exploração de petróleo e gás na plataforma continental. Esta situação pode ser agravada pelo Projeto de Lei que inclui o Norte-Noroeste Fluminense no polígono do semiárido e pelo cultivo do eucalipto no lugar das culturas tradicionais.
- 1 COUTO REIS, Manoel Martins do Couto. Descrição geográfica, política e cronográfica do Distrito dos Campos Goitacazes. Campos dos Goytacazes: Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima/Rio de Janeiro: Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, 2011.
- 2 WIED-NEUWIED, Maximiliano. Viagem ao Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia/São Paulo: EDUSP, 1989.
- 3 SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem pelo Distrito dos Diamantes e litoral do Brasil. Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp, 1974.
- 4 BURMEISTER, Hermann. Viagem ao Brasil através das Províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1980.
- 5 FURTADO, Manoel Basílio. Itinerário da Freguesia do Senhor Bom Jesus do Itabapoana à Gruta das Minas do Castelo, 2ª edição. Campos dos Goytacazes: IFF/Essentia, 2016.
- 6 CARAUTA, Jorge Pedro Pereira e FERREIRA DA ROCHA, Elizabeth de Souza. Conservação da flora no trecho fluminense da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul. Albertoa vol. 1, nº 11. Rio de Janeiro: Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente, março de 1988.
- 7 LAMEGO, Alberto Ribeiro. Mármores do Muriaé: Estado do Rio de Janeiro. Boletim nº 97. Rio de Janeiro: Departamento Nacional da Produção Mineral/Serviço Geológico e Mineralógico, 1940.
- 8 MARTIN Louis; SUGUIU, Kenitiro; DOMINGUEZ, José Maria Landim e FLEXOR, Jean-Marie. Geologia do Quaternário costeiro do litoral norte do Rio de Janeiro e do Espírito Santo. Belo Horizonte: CPRM.
- 9 FREIRE, José Ribamar Bessa e MALHEIROS, Márcia Fernanda. Aldeamentos indígenas do Rio de
- Janeiro. Rio de Janeiro: UERJ, 1977.
- 10 COUTO REIS, Manoel Martins do Couto. Descrição geográfica, política e cronográfica do Distrito dos Campos Goitacazes. Campos dos Goytacazes: Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima/Rio de Janeiro: Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, 2011.
- 11 SOUZA, Antonio Moniz de. Viagens e observações de um brasileiro, 3ª ed. Salvador: Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, 2000.
- 12 CASAL, Manuel Aires de. Corografia Brasílica ou Relação Histórico-Geográfica do Reino do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1976.
- 13 PIZARRO E ARAUJO, José de Souza Azevedo. Memórias Históricas do Rio de Janeiro, 3ºvol., 2ª ed. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1945.
- 14 SAINT-ADOLPHE, J.C.R. Milliet de. Dicionário geográfico histórico e descritivo do Império do Brasil. Paris: Vª J. -P. Aillaud, Guillard e Cª, 1863.
- 15 MELLO, José Alexandre Teixeira de. Campos dos Goitacases em 1881. Rio de Janeiro: Laemmert, 1886.
- 16 Ibidem.
- 17 MASSA, Françoise. Um francês no vale do Carangola. Belo Horizonte: Crisálida, 2016.
- 18 SANTIAGO, Ioli Ferreira. “O rio se avolumou e invadiu”: Inundações e relações entre sociedade e natureza na cidade de Carangola (1979-2021). Viçosa: Universidade Federal de Viçosa (MG), 2025. Dissertação de mestrado.
- 19 VELOSO, Henrique Pimenta, RANGEL FILHO, Antonio Lourenço Rosa e LIMA, Jorge Carlos Alves. Classificação da vegetação brasileira, adaptada a um sistema universal. Rio de Janeiro: Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 1991.